O celular de Luccardina del Valle Gonzalez Rondon, de 55 anos, vibrava incessantemente durante a madrugada do dia 3 de janeiro de 2026. A faxineira, que sempre dormiu com o aparelho ao lado da cama, na noite anterior o havia deixado na sala após um dia atípico de praia. Quando acordou, por volta das 8h, não podia acreditar no que via. Eram centenas de mensagens e ligações perdidas de familiares e amigos, todas sobre o mesmo assunto: o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, haviam sido capturados por militares norte-americanos.
Uma das primeiras mensagens que recebeu foi de sua tia, Lucia Martinez Salas, de 75 anos. A professora aposentada é uma das poucas pessoas da família que ainda mora na Venezuela. “Foi uma emoção muito grande. Desse lado, nós celebramos, mas eles, lá na Venezuela, não podiam”, conta Luccardina, que deixou o país em 2018 em meio à grave crise econômica e, hoje, vive em Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina. Ela é uma dos quase 7,9 milhões de venezuelanos espalhados pelo mundo, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
A captura de Maduro foi uma surpresa para venezuelanos dentro e fora do país, embora a existência de um plano norte-americano para a Venezuela não fosse novidade. A tensão entre o governo dos Estados Unidos (EUA), presidido por Donald Trump, e Maduro começou a aumentar meses antes, em agosto de 2025, quando Washington iniciou o envio de embarcações para o sul do Mar do Caribe, sob a justificativa de combate ao narcotráfico. Nessa mesma época, uma recompensa de 50 milhões de dólares (cerca de R$ 248 milhões) foi oferecida pelos EUA por informações que levassem à prisão do presidente venezuelano, acusado pelas autoridades norte-americanas de manter vínculos com uma “organização terrorista”.
Para analistas internacionais, o aumento da pressão do governo Trump sobre a Venezuela faz parte de uma estratégia geopolítica na América Latina, com foco na exploração de petróleo na região. Apesar de comportar a maior reserva da matéria-prima do mundo, estimada em 303 bilhões de barris pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), o país sul-americano responde por cerca de 1% da produção global.
“Não era a questão do petróleo, sobretudo, mas também o modo como o chavismo era um aliado da Rússia e da China”, explica o cientista político e professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Maurício Santoro. Para ele, só há duas razões para um país ir à guerra: autoproteção e quando há uma determinação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). “Não houve, nessa situação da Venezuela, nenhuma dessas condições”. Dessa forma, considera que a intervenção significou uma violação da soberania para atender interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos.
Enquanto Maduro e Flores permanecem presos em Nova York, nos EUA, aguardando o julgamento das acusações feitas pela Justiça norte-americana, a ex-vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, cumpre mandato interino. Mesmo sem data marcada para convocação de novas eleições presidenciais, a líder da oposição, María Corina Machado, mobiliza apoiadores sob o discurso de retomada da democracia.
Na capital catarinense, Luccardina e mais 17 venezuelanos criaram um grupo para discutir política e mobilizar outros imigrantes. No dia 4 de janeiro, foram às ruas comemorar a captura de Maduro. Agora, esperam ansiosamente a data de uma nova eleição, da qual fazem questão de participar.
Sem saber quando o país decidirá a próxima liderança, quais serão os verdadeiros efeitos da intervenção dos EUA e se haverá reabertura para a liberdade de expressão e de imprensa, o povo venezuelano vive um momento marcado por dúvidas. Depois do dia 3 de janeiro de 2026, aqueles que permaneceram na Venezuela apesar da crise socioeconômica e aqueles que a deixaram na esperança de melhores condições de vida passaram a compartilhar a mesma pergunta: o que acontece agora?
“El país, promesa zombi, es un derrumbe apuntalado con eslóganes de otras eras. La ruina, testaruda, aunque lo niegue, siempre sabe que lo es”.
- María Elena Morán, Volver a cuándo
O motorista de aplicativo Orlando Morales, de 35 anos, estava em Florianópolis (SC), a mais de 3.500 km da sua cidade natal, San Fernando de Apure, na madrugada do dia 3 de janeiro, mas o que aconteceu naquele dia também pode mudar o rumo da sua história.
Orlando está entre os mais de 6,95 milhões de venezuelanos que escolheram países da América Latina e do Caribe para viver, de acordo com dados da Plataforma Regional de Coordenação Interagencial para Refugiados e Migrantes da Venezuela (R4V), e que agora se perguntam se é o momento de retornar.
Formado em Engenharia Civil, ele deixou a Venezuela em 2018, quando o país atingiu o pico no volume de saídas, registrando em média 5 mil por dia. Naquele ano, mais de 1,3 milhão deixaram o país, segundo dados do Banco Mundial. Desde então, o número de venezuelanos espalhados pelo mundo continuou aumentando.
6,95 milhões
de venezuelanos atualmente vivem em outros países da América Latina e do Caribe
2,85 milhões na Colômbia
1,64 milhão no Peru
761,3 mil no Brasil
No entanto, essa tendência pode vir a mudar. Nos primeiros 13 dias de 2026, com a intervenção dos EUA ainda recente, o fluxo migratório teve uma queda significativa. Nesse período, foram registradas 1.014 entradas de venezuelanos pela cidade de Pacaraima, principal ponto de passagem para quem sai da Venezuela em direção ao Brasil, enquanto no ano anterior foram 2.121, representando uma redução superior a 50%. Em 2024, o número registrado foi 2.161, segundo dados da Operação Acolhida, iniciativa humanitária do governo brasileiro que oferece atendimento voltado à integração social, econômica e cultural de venezuelanos.
Para o doutorando em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e membro do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia, Eduardo José Weffer Villarroel, a diminuição da intenção de saída da Venezuela depois da captura de Maduro não é coincidência. “Muitas pessoas adiaram suas saídas na Venezuela pelas expectativas de que a situação possa melhorar. Não vai ser um processo rápido, de hoje para amanhã, mas está acontecendo”.
Desde sua criação, a Operação Acolhida conta com a parceria da Organização Internacional para as Migrações (OIM), da ONU, onde Villarroel trabalhou de 2021 a 2023. Segundo a agência, até 2025, um milhão de pessoas foram acolhidas na fronteira norte do Brasil com a Venezuela.
Agora, os venezuelanos que estão vivendo em outros países, como o Brasil, podem se deparar com a dúvida: ficar ou voltar? Enquanto a estabilidade financeira e a empregabilidade são os fatores que mais pesam para quem opta por permanecer no país de acolhida, de acordo com uma pesquisa do ACNUR, a reunificação familiar é o que mais influencia na decisão de retornar à Venezuela.
“Nós sempre sentimos saudades porque estamos longe de casa, longe da nossa família, longe da nossa terra, que, querendo ou não, é parte de nós, da nossa trajetória, do nosso ser. Estamos sempre sentindo essa nostalgia, mesmo que aqui tudo, no geral, esteja bem”, afirma o especialista venezuelano Villarroel.
A pesquisa da ACNUR, que entrevistou 1.288 pessoas entre 27 de janeiro e 4 março de 2026, aponta que 35% dos refugiados e migrantes venezuelanos, residentes em diferentes países latino-americanos, consideram a possibilidade de retornar. Na maioria dos casos, a recuperação econômica e a estabilização política são as condições-chave para o retorno definitivo.
Enquanto Orlando já pretende embarcar em uma viagem só de ida para a Venezuela entre julho e agosto deste ano, há aqueles que sequer cogitam voltar. Moradora da capital catarinense há dez anos, a psicóloga Merlina Saudade Ferreira Neira, de 43 anos, faz parte desse segundo grupo. “Mas eu quero ver o meu país bem. Ver o meu país livre não impacta somente em voltar. É sentir a sensação de liberdade”, afirma, ao lembrar da difícil realidade de quando morava na terra natal.
Da vida em Maracay, cidade a 80 km da capital venezuelana, Caracas, Merlina lembra que os desafios começavam na hora de colocar comida na mesa. Quarta-feira era o único dia da semana em que podia ir ao supermercado. Seu marido, Jose Rafael Gonzalez, de 49 anos, era autorizado a ir nas sextas-feiras. Isso porque o número final da cédula de identidade determinava quando cada pessoa poderia fazer compras nos estabelecimentos. Mesmo enfrentando longas filas, já houve vezes em que ela não conseguiu pegar o segundo quilo de arroz a que cada venezuelano tinha direito, devido à falta do alimento.
“E por conta dessa situação, muitas pessoas estavam passando necessidades como fome e estavam morrendo porque não conseguiam atendimento médico. Por causa disso, decidiram sair da Venezuela em busca de melhores condições de vida”, explica o especialista Villarroel sobre a principal razão da migração em massa.
Mesmo hoje, com a vida bem estabelecida no Brasil, Merlina não deixou de celebrar a captura de Maduro e de telefonar para pessoas que vivem na Venezuela. “É uma sensação agridoce porque você não quer ver isso no seu país, um monte de bombardeio. Mas, ao mesmo tempo, foi bom saber que o homem que manteve nosso país na maior miséria que a gente viveu na história foi preso”. Mas nem todos pensaram da mesma forma. “Muitas pessoas falaram que a gente era burro, idiota, estúpido, por apoiar o sequestro de Maduro”, conta a psicóloga.
As visões opostas em relação ao 3 de janeiro são um reflexo da forte polarização política no país. Com a Venezuela dividida, segundo Villarroel, criou-se um ambiente “tóxico” e “desagradável” entre cidadãos que defendem pensamentos distintos, inclusive dentro das famílias. De acordo com o especialista, “o governo conseguiu dominar a população”. “E isso ultrapassou limites de tolerância, convivência e respeito, em que as pessoas ficaram cegas pela ideologia”.
Nos últimos anos, o chavismo também se tornou parte do ambiente escolar, com grande influência sobre conteúdos ensinados e as atividades ministradas desde os primeiros anos de escolarização. Villarroel explica que disciplinas básicas e importantes como matemática, língua, geografia e história do país foram reduzidas para introduzir “conteúdos totalmente ideológicos”. “No regime, é mais importante, por exemplo, que uma criança de sete anos aprenda sobre a história e a vida de Hugo Chávez do que ler e escrever adequadamente”.
Outros fatores também contribuíram para um processo de defasagem no ensino, como o contexto socioeconômico que impõe a diversos profissionais, inclusive professores, a necessidade de sobreviver com baixos salários. Muitos docentes não têm dinheiro para pagar o transporte até a instituição e dão aulas apenas alguns dias na semana. “E quem está no meio é uma criança, um estudante que não tem culpa de nada”, lamenta Villarroel.
Dados da Pesquisa Nacional sobre Condições de Vida (ENCOVI) revelam que, em 2025, 49% dos estudantes de 12 a 17 anos de idade do gênero masculino apresentaram atraso escolar de um ou dois anos. Em relação ao gênero feminino, a taxa registrada foi de 37%. Mais de 1,2 milhão de crianças, adolescentes e jovens de três a 24 anos estão excluídos do sistema educacional venezuelano. Do grupo entrevistado, 44% assistem irregularmente às aulas.
Em meio a um cenário frágil para o desenvolvimento dos estudantes, o músico Misael Rodriguez, de 24 anos, considera que o contexto educacional em que esteve inserido durante a adolescência na Venezuela foi “privilegiado” em comparação a outras realidades. Antes de migrar com sua família para o Brasil, em 2017, mais especificamente para Boa Vista (RR), ele e os dois irmãos estudavam em uma escola particular. A instituição não estava entre as mais caras de Valência, cidade onde moravam a 115 km de Caracas, mas era a melhor opção que os pais conseguiam pagar para os três filhos.
“Tinham ricos e tinham pobres que davam jeito de pagar a mensalidade da escola. Precisávamos correr atrás dos serviços privados porque o público não funciona. Como adulto, eu percebo que não seríamos hoje as pessoas que somos se tivéssemos realmente vivido apenas com serviços públicos”. Além da mensalidade, a família precisava arcar com outros custos, como uniforme, material escolar e gasolina para o trajeto de 40 minutos entre a casa e a escola.
Quando tinha 15 anos, por decisão dos pais e contra a sua vontade, Misael deu adeus à escola, aos amigos e à vida que vinha construindo no país onde nasceu para migrar em busca de uma melhor condição familiar. Hoje, nove anos após a mudança, não pensa em retornar. “Não me imagino em uma realidade que eu volte para morar ou para construir o meu futuro, da minha família e do país”.
“Por eso, como habremos de darmos a la rosa y al árbol, a la tierra y al viento, te pido que nos demos al futuro del mundo”.
- Miguel Otero Silva, Siembra
Mesmo quem não se imagina mais vivendo na Venezuela e não se sente fortemente impactado pelos novos desdobramentos ocorridos no país, vive as expectativas sobre quem será o próximo presidente. Para o comerciante Ricardo Battistini, de 48 anos, a estrutura política venezuelana ainda precisa passar por mudanças significativas. “Eu imagino que no futuro vão ter que ir para eleições novamente. Agora tem que limpar porque o país está podre. Limpar de verdade. O câncer está lá dentro”.
Nascido no Brasil e com cerca de 20 anos de história na Venezuela, mudou-se definitivamente para Florianópolis em 2009 junto de sua esposa, a confeiteira venezuelana Luzmery Medina, de 48 anos, e a filha Camila Battistini, de 18 anos. Um dos principais fatores que motivaram a mudança foi a falta de segurança.
Segundo o Observatório Venezuelano da Violência (OVV), o país registrou, em 2013, 79 assassinatos a cada 100 mil habitantes, ou seja, cerca de 25 mil em um ano e quase três casos por hora. Para efeito de comparação, neste mesmo ano, o Brasil teve 29 mortes a cada 100 mil habitantes. Em Caracas, o índice foi ainda maior, com 134 mortes, o que transformou a capital em uma das mais perigosas do planeta. O último informe anual de violência do OVV foi publicado em 2023.
O choque, ao chegar em Florianópolis, foi grande. A capital de Santa Catarina era a casa dos pais de Ricardo e, por isso, foi a primeira opção do casal. Com o dinheiro que tinham guardado, conseguiram comprar passagens aéreas e, sem pensar duas vezes, mudaram-se para o estado catarinense.
A quilômetros de distância da nação hispanofalante, a família observou de longe o chavismo vencer todas as eleições presidenciais nas quase duas últimas décadas. “Mas o futuro está bonito. Vai dar certo”, completa o comerciante, com olhar esperançoso sobre as próximas eleições, que ainda não têm data para acontecer.
De acordo com o artigo 233 da Constituição da Venezuela, na ausência do presidente por mais de 90 dias, a Assembleia Nacional deve convocar novas eleições. No caso de Maduro, esse prazo acabou em 2 de abril, mas, até agora, não há sinais de que a população seja chamada às urnas. Jorge Rodríguez, irmão de Delcy Rodríguez e presidente da Assembleia, defende a necessidade de diálogo antes de qualquer decisão. Em entrevista ao jornal espanhol El Pais, em 11 de abril, disse que, primeiro, a economia precisa ser recuperada. Até lá, a liderança chavista de sua irmã é protelada.
Por outro lado, a população indica ter pressa para participar do processo democrático. Segundo um levantamento feito em março pela consultoria venezuelana Poder y Estrategia, 64% dos 1.040 entrevistados desejam que a eleição presidencial ocorra ainda em 2026. Outros 8% defendem que a votação aconteça no primeiro semestre de 2027 e 5% preferem que ela seja adiada para o segundo semestre do próximo ano.
Enquanto não há declaração oficial de que Delcy Rodríguez disputará as próximas eleições, María Corina Machado, líder da oposição, já deixou bem claro que pretende concorrer. Em 18 de abril de 2026, reuniu uma multidão de venezuelanos no coração de Madri, capital da Espanha, clamando por eleições rápidas e anunciando o início do retorno à casa.
“Tudo o que fizemos durante estes longos 27 anos foi nos preparar para um momento de reencontro e de construção de uma nação que será livre para sempre”, declarou em referência ao período em que Chávez e Maduro estiveram no poder.
Seu discurso voltado à convocação pela liberdade da Venezuela não é recente. Acusada pelo regime de Maduro de apoiar sanções internacionais e conspirar contra o governo, foi impedida de concorrer às eleições de 2024. Passou, então, a liderar a campanha política de Edmundo González Urrutia, ex-diplomata lançado pela coalizão opositora para disputar a presidência.
O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) anunciou, em 28 de julho de 2024, a vitória de Maduro, resultado fortemente contestado pela oposição e por parte da comunidade internacional, que solicitou a publicação das atas eleitorais. A solicitação não foi atendida, e Maduro foi empossado presidente em 10 de janeiro de 2025. Em meio a protestos contra o presidente nos meses seguintes, Machado teria sofrido perseguição política e ameaças, segundo relatos próprios e de aliados. Temendo por sua segurança, a opositora passou quase um ano escondida, voltando a aparecer em público no final do ano passado.
Em 9 de dezembro de 2025, deixou a Venezuela clandestinamente com destino à Oslo, na Noruega, para receber o Prêmio Nobel da Paz por seu “trabalho incansável promovendo direitos democráticos” para o povo venezuelano. Cerca de um mês depois, a política chegou a entregar a medalha do Nobel da Paz ao presidente Donald Trump, como forma de agradecimento pela captura de Maduro, mesmo após o norte-americano tê-la descartado como liderança e optado por apoiar Rodríguez como presidente interina. “Eu acho que para ela [Machado] seria muito difícil ser a líder, porque ela não tem o apoio e o respeito de todo o país. Ela é uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito”, disse Trump em discurso no dia 3 de janeiro de 2026.
Enquanto Machado busca engajar apoiadores espalhados pelo mundo, os EUA adotam uma postura cautelosa em relação a novas eleições e pedem por paciência na transição política. Segundo o economista venezuelano José Félix Rivas, o país norte-americano não estaria realmente preocupado com a democracia na Venezuela. “Eles [os EUA] não se interessam pelas eleições. Eles se interessam que o petróleo brote a maior velocidade possível da terra venezuelana para que o petróleo saia e se mande através de tanques, e assim os vendam e os tenham como reserva estratégica”.
Apesar de não estar definida, para muitos, a eleição representa a chance de melhores condições de vida. Imigrante há oito anos, Luccardina del Valle Gonzalez Rondon, de 55 anos, que tem uma rotina de trabalho intensa em uma jornada sete por zero, reconhece que “há venezuelanos em situação muito pior” e enxerga com otimismo o futuro daqueles que seguem vivendo no país, apesar da crise. “Com tudo o que eu ganho, eu sou rica. Sou milionária. O que eu penso é que lhes deem emprego, que os que ficaram lá na Venezuela sejam os primeiros a agarrarem o fruto que virá”.
Mesmo a 4.460 km de distância de sua cidade natal, Maturín, Luccardina mantém uma vida política ativa, fazendo parte de um grupo de 17 imigrantes venezuelanos que vivem em Florianópolis e debatem a situação no país de origem. Com a troca de mensagens praticamente diária no WhatsApp, às vezes também convocam outros compatriotas para atos presenciais. Em meio às incertezas sobre quando acontecerá a próxima eleição presidencial, o grupo está se organizando para ir à Embaixada da Venezuela em Brasília para exercer o direito ao voto.
Já o pai de Luccardina, Elpidio Gonzalez, de 82 anos, que mora com ela há três anos, tem outros planos. “Ele não quer votar aqui, quer votar na Venezuela”. Para que a vontade do pai se concretize, ela explica que irá acompanhá-lo. “Eu disse ao meu pai que não podemos ir lá até que María Corina Machado entre e diga ‘olha, as eleições são para esta data’”. A ideia é ir até o país de “férias”, por cerca de 15 dias. A família só consegue visualizar um retorno definitivo daqui a dois ou três anos. “Estou esperando que a situação se estabilize um pouco mais, porque ainda está muito ruim”.
"Algún día será verdad. El progreso penetrará en la llanura y la barbarie retrocederá vencida. Tal vez nosotros no alcanzaremos a verlo; pero sangre nuestra palpitara en la emoción de quien lo vea".
- Rómulo Gallegos, Dona Bárbara
Para aqueles que ficaram, resta o sonho de uma Venezuela reconstruída. Enquanto isso, a realidade ainda carrega inúmeras dúvidas.
“Parece que por um lado está melhorando, mas por outro estamos estagnados. Estamos estagnados em… Não sei, porque não sei muito de economia, não sei por que o dólar não fica estável. Todos os dias aumenta, aumenta, aumenta, aumenta. Então, há uma crise interna, não sei como chamá-la, de um venezuelano contra outro venezuelano”, desabafa Zaida Rangel, de 60 anos.
Zaida mora em Sucre, município no estado de Miranda, na área metropolitana de Caracas. Professora universitária aposentada, nunca cogitou deixar o país. Começou a trabalhar cedo, passando roupas e cuidando dos sobrinhos. Também foi taxista, cuidou de um idoso, vendeu roupas e sapatos, já fez e comercializou doces. “Aqui eu posso fazer muitas coisas, então não tenho por que ir fazê-las em outro país. Gostaria de ir a outra nação como turista, passear, conhecer outros lugares. Mas ir morar em outro país… não passa pela minha cabeça”.
O salário, entretanto, ainda é uma preocupação para ela. Pelo tempo de serviço e por ter pós-graduação, recebe mensalmente em torno de 850 bolívares, o que, na cotação atual, representa 1,65 dólares (R$ 8,35).
De acordo com o relatório do Centro de Documentação e Análise Social da Federação Venezuelana de Professores (Cendas-FVM), publicado em março de 2026, o salário mínimo mensal na Venezuela permanece congelado em 130 bolívares, desde março de 2022. No entanto, nesses quatros anos, a taxa de câmbio não se manteve a mesma. Na época, a quantia representava em torno de 30 dólares (R$ 153,69, na cotação daquele período). Em março deste ano, com a taxa de câmbio de 445 bolívares (Bs) por um dólar (USD), essa renda equivalia a 0,29 USD por mês (aproximadamente R$ 1,55).
Para recuperar a perda do poder aquisitivo, causada pelas pressões inflacionárias, e contornar as sanções internacionais impostas ao país, sobretudo pelos Estados Unidos, o governo de Nicolás Maduro adotou uma política de bônus avulsos. Esses bônus se dividem em duas categorias: o "bônus de guerra econômica", criado em 2017 e expandido conforme as restrições externas se intensificavam, e o ticket de alimentação, vinculado ao Comitê Local de Abastecimento e Produção (CLAP), programa criado em 2016 para distribuir cestas básicas subsidiadas. No caso de Zaida, os auxílios somavam, em março deste ano, aproximadamente 190 dólares (R$ 995,05) mensais – 150 dólares (R$ 785,56) de bônus de guerra e 40 dólares (R$ 209,48) em tickets de alimentação.
“Recebemos alimentos, como farinha de trigo, farinha de milho, arroz, grãos, leite, alguns enlatados como sardinha e carne, espaguete, entre outros. Isso ajuda, mas, na minha opinião, deveríamos receber o salário que devemos receber e comprar o que quisermos e precisarmos comprar de alimentos”, declara Zaida.
Para garantir que esses benefícios não fossem corroídos pela inflação, o governo adotou a indexação. Dessa forma, os auxílios são pagos em bolívares, mas calculados com base na cotação do dólar no dia do pagamento, tornando-os, na prática, benefícios dolarizados.
No dia 30 de abril de 2026, a presidente interina, Delcy Rodríguez, anunciou um aumento de 26% na chamada renda mínima integral, que passou de US$ 190 (cerca de R$ 950), como era o caso de Zaida, para US$ 240 (cerca de R$ 1.200) por mês. As medidas entraram em vigor no dia 1° de maio, Dia do Trabalhador.
Em entrevista ao jornal Efecto Cocuyo, o Ministro do Trabalho, Carlos Alexis Castillo, explicou que, com esse reajuste, a renda integral consiste no equivalente em bolívares de US$ 200 (R$ 992,97) do chamado bônus de guerra econômica e US$ 40 (R$ 198,59) do auxílio-alimentação. As empresas privadas também são obrigadas a garantir a bonificação mínima, garantiu o Ministro.
“Estamos usando esse método porque, neste momento, não podemos aumentar os salários […] porque aumentar os salários significa que a inflação vai disparar e, consequentemente, será um salário falso”, justificou Castillo.
O problema dos bônus, destaca Zaida, é que eles não integram o salário-base e, assim, não entram no cálculo de férias, décimos terceiros, aposentadorias ou indenizações. Além disso, nem todos recebem as mesmas quantias de dinheiro. “Os funcionários públicos aposentados receberam um bônus de guerra menor. A maioria deles também não recebe o ticket de alimentação”, afirma.
Mesmo com o aumento de 1° de maio, os bônus dos aposentados ficaram em torno de US$ 70 (R$ 347,54) por mês. Foi essa diferença salarial que fez Zaida voltar a dar aulas, depois de um tempo estando aposentada. Pelo mesmo motivo, outros venezuelanos se mobilizam e vão às ruas para reivindicar melhores salários.
Fonte: Federação Venezuelana de Professores
Fonte: Federação Venezuelana de Professores
Fonte: Federação Venezuelana de Professores
Fonte: Federação Venezuelana de Professores
Fonte: Efecto Cocuyo
Fonte: Efecto Cocuyo
Fonte: Efecto Cocuyo
Fonte: Efecto Cocuyo
Fonte: Efecto Cocuyo
Fonte: Efecto Cocuyo
“Bônus não é salário”, protesta a Federação Venezuelana de Professores (FVM). Em comunicado oficial, publicado em em 1° de maio, o sindicato alega que o anúncio do "ajuste para 240 dólares" é uma fraude salarial. “O Executivo persiste em sua política de bonificação da renda, mantendo o salário mínimo ancorado a valores insignificantes. Esta prática é uma violação aberta à legislação trabalhista vigente e à Constituição Nacional”, diz a entidade.
Além disso, o sindicato denuncia a exclusão sistemática dos aposentados do Comitê Local de Abastecimento e Produção (CLAP): “o setor que dedicou sua vida a formar as gerações deste país é hoje o mais vulnerável, razão pela qual exigimos a incorporação imediata dos aposentados ao benefício do Vale-Alimentação e a todos os benefícios dos servidores ativos”.
Lucia Martinez Salas, de 75 anos, faz parte do grupo de aposentados que precisam viver com menos de 200 dólares (R$ 1.011,01) ao mês. “Dólares”, enfatiza, “aqui não se fala em bolívares, mas em dólares. Isso que todos nós ganhamos em bolívares e não há dólares pelas ruas”. Apesar da moeda norte-americana não circular no comércio venezuelano, todos os preços são calculados com base na cotação da moeda. Com isso, os valores tendem a subir com o aumento da taxa de câmbio, inclusive os preços dos alimentos.
De acordo com o Centro de Documentação e Análise Social (Cendas) da FVM, a Cesta Básica Universal (CBU) de março de 2026 ficou em Bs. 308.084,33, o equivalente a US$ 692,32 (R$ 3.623,54). Somando-se a despesa essencial com água potável, o custo total chegava a US$ 703,11 (R$ 3.680,01). Com base nesses valores, para conseguir alimentar uma família de cinco pessoas, um trabalhador precisava receber mais de 2.400 salários mínimos.
No campo da inflação, entretanto, o Banco Central da Venezuela (BCV) registrou uma desaceleração nos primeiros meses do ano. Após uma alta de 32,6% em janeiro, diante das incertezas políticas da época, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) recuou para 14,6% em fevereiro, 13,1% em março e 10,6% em abril. Ainda assim, a variação acumulada até abril chegou a 90%, bem acima dos 53,5% registrados no mesmo período de 2025.
Em abril, os grupos com maiores altas, segundo o BCV, foram Transportes e Alimentos e bebidas não alcoólicas, ambos com 11,5%. Dentro da cesta de alimentos, os destaques foram vegetais, raízes e cereais (18,2%), peixes (14%) e leite, queijo e ovos (13,1%).
“Hoje, temos comida nos mercados, mas não temos dinheiro para comprar”, conta Lucia. “O quilo de carne está em 9 dólares (R$ 47,11), o quilo de queijo custa 7 dólares (R$ 36,64) e o litro de leite está em torno de 3 dólares (R$ 15,70)”, detalha a aposentada, em entrevista realizada em março de 2026.
O BCV, entretanto, projeta cenário mais estável para o restante do ano. A instituição aponta que o ambiente favorável no mercado internacional de petróleo, combinado às reformas nos setores de hidrocarbonetos e mineração, deve impulsionar a atividade econômica e consolidar a queda da inflação.
Enquanto isso, a indignação dos venezuelanos continua a aumentar. “Como você acha que pode estar o povo que trabalha muito para ter uma vida digna? O povo está louco para que esse período acabe e que venham eleições e nomeiem outro presidente. [...] Quem se enriquece são sempre os que governam. E o povo tem que estar com o estômago vazio, recebendo migalhas para sempre estar atrás deles”, afirma Lucia.
Há quem prefira manter a esperança. A professora aposentada Zaida ainda observa o atual governo de uma forma mais positiva. Para ela, a presidente interina Delcy Rodríguez age sob pressão, sem outra saída. "Acho que Delcy tem a pistola na cabeça. Ela está fazendo o que tem que fazer para evitar novos bombardeios". Na sua leitura, as concessões do governo venezuelano às exigências de Washington são uma necessidade estratégica. "Ela tem que cumprir alguns caprichos de Trump, queiramos ou não queiramos. Tem que ceder em alguns pontos. Mas acho que está fazendo isso de uma maneira inteligente", pondera, citando como exemplos positivos as aberturas ao investimento estrangeiro e a nova lei de hidrocarbonetos.
As dúvidas econômicas, entretanto, também a rondam. "Nós somos um país resiliente, um país alegre. Das coisas ruins, tiramos uma piada e rimos, até do Maduro nós rimos. São muitas as coisas que aguentamos, mas ainda nos falta algo para enfrentar a economia", conta.
"Enquanto eu me sentir saudável, me sinto forte e capaz de fazer muitas coisas. Então eu vejo meu país saudável, economicamente estável e o vejo bem. Em breve, em breve", conclui Zaida, com a voz carregada de uma fé que parece sustentar, dia após dia, quem aprendeu a resistir sem perder o humor.
Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1
Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres
Florianópolis, 30 de junho de 2026
Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo
