Fonte: AFP

Fonte: AFP

3h05 a.m. Caracas

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, moradores dos estados de Miranda, Aragua e La Guaira foram arrancados do sono por bombas que quebraram o silêncio da noite venezuelana. Os primeiros relatos do ocorrido chegaram às redes sociais por volta de 1h55 no horário local (2h55 no Brasil). Pouco mais de uma hora depois, às 3h05, Luz Mely Reyes publicava a primeira matéria no Efecto Cocuyo, um dos principais jornais independentes da Venezuela.

Cofundadora e diretora do Efecto Cocuyo, Reyes deixou Caracas em 2018, depois de sofrer ameaças por expor o governo de Nicolás Maduro. A distância, no entanto, nunca foi suficiente para afastá-la da cobertura jornalística do país. Naquela madrugada, ela estava em Austin, no estado do Texas, nos Estados Unidos, quando reuniu a equipe do jornal, com 12 pessoas, e tornou públicas as primeiras informações da situação que ocorria em sua terra natal.

Caracas já havia registrado falhas na rede elétrica na noite anterior. No entanto, ninguém esperava que o primeiro sábado do ano começasse daquela forma. Vídeos passaram a circular nas redes sociais, mostrando aeronaves norte-americanas sobrevoando a capital em baixa altitude, colunas de fumaça negra e explosões iluminando o céu. Uma hora depois dos primeiros ataques, ainda não havia nenhuma declaração oficial ou esclarecimento público do que estava acontecendo.

“Não tínhamos clareza de nada e precisávamos verificar cada informação. Usamos, então, um grupo no WhatsApp para conferir os fatos”, conta Reyes. O canal Vente tú, criado em 2025 no aplicativo de mensagens, reunia jornalistas de diversos veículos, tanto de dentro quanto de fora da Venezuela. Eles já se preparavam para uma possível ofensiva dos Estados Unidos ao território venezuelano. 

Na madrugada de 3 de janeiro, para os jornalistas, o silêncio institucional era apenas um dos obstáculos. “Também foi um desafio de segurança para os repórteres que estavam em campo: como fazer para ir aos lugares dos ataques? Ainda tínhamos que narrar em tempo real e não cair em desinformação”, complementou a jornalista. 

Apesar de tudo, o Efecto Cocuyo não parou e, nas horas seguintes, continuou expondo ao mundo o que acontecia no país.

3h35 a.m. Caracas

Trinta minutos após Luz Mely publicar a primeira matéria, o governo venezuelano se pronunciou à estatal Venezolana de Televisión (VTV), rechaçando os ataques aéreos sobre Caracas e cidades próximas, atribuídos às forças militares dos Estados Unidos. O documento listava os alvos atingidos, classificava a ação como violação flagrante da Carta das Nações Unidas (ONU) e a atribuía a uma tentativa de se apoderar dos recursos estratégicos do país, petróleo e minerais, para "quebrar a independência política" da Venezuela.

Esses, entretanto, não foram os primeiros bombardeiros confirmados em território venezuelano desde o início da campanha dos EUA contra o governo de Nicolás Maduro.

A pressão norte-americana contra o Estado da Venezuela se intensificou em agosto de 2025, quando o país enviou um expressivo aparato militar para o Mar do Caribe. A justificativa oficial era o combate ao narcotráfico internacional. No final de dezembro, a Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) alvejou um porto em território venezuelano. De acordo com reportagem do The New York Times, Washington acreditava que o local servia como depósito de narcóticos da organização criminosa Tren de Aragua e preparava barcos para levar as drogas aos Estados Unidos. Segundo o jornal, ninguém morreu na ofensiva.

Dois dias antes do 3 de janeiro, Maduro ainda buscava transparecer normalidade. Em transmissão na VTV, na quinta-feira, 1º de janeiro, ao ser questionado pelo jornalista espanhol Ignacio Ramonet sobre um suposto ataque terrestre norte-americano, respondeu sem confirmar nem negar: "Isso é algo que podemos discutir daqui a alguns dias". Alegou, porém, que o sistema de defesa nacional "garantiu e garante a integridade territorial, a paz do país e o uso e gozo de todos os nossos territórios".

Menos de 48 horas depois, o mesmo canal estatal anunciava a ativação dos mecanismos de defesa e convocava a população a sair às ruas para "defender" o país. O que ainda não havia sido divulgado é que Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, já haviam sido capturados pelos militares norte-americanos. 

4h a.m. Caracas

Enquanto as explosões ainda ecoavam sobre a Venezuela, o céu ao redor do país era oficialmente fechado. A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) proibiu aeronaves americanas de operar em qualquer altitude dentro do espaço aéreo venezuelano, citando riscos associados à atividade militar em curso. Por volta das 4h da manhã, a agência emitiu quatro avisos cobrindo as regiões de San Juan, Piarco, Maiquetia e Curaçao.

A medida já havia sido solicitada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, em novembro do ano anterior, em declaração não oficial: "A todas as companhias aéreas, pilotos, traficantes de drogas e traficantes de pessoas, por favor, considerem o espaço aéreo acima e ao redor da Venezuela como totalmente fechado", escreveu em suas redes sociais. Apesar de ter sido repudiada pelo Ministério das Relações Exteriores venezuelano, a declaração produziu efeito: os voos na região caíram drasticamente nas semanas seguintes.

No mar, o cenário era igualmente tenso. Em novembro, os Estados Unidos já haviam posicionado no Caribe cerca de 15 mil soldados, ao menos nove navios de guerra e um submarino nuclear. Entre eles, estava o USS Gerald R. Ford, o maior e mais avançado porta-aviões do mundo, segundo a própria Marinha americana.

Além do aparato aéreo e naval, agentes da Agência Central de Inteligência Americana (CIA) já circulavam por Caracas, segundo o jornal The New York Times. Os agentes infiltrados foram, por meses, reunindo as informações que tornaram a intervenção possível. Dados sobre os movimentos diários de Maduro, combinados com uma fonte humana próxima ao presidente e uma frota de drones furtivos sobrevoando a cidade em sigilo, permitiram mapear cada detalhe de sua rotina.

Com as informações reunidas e as equipes preparadas, na noite de sexta-feira, 02 de janeiro, Donald Trump autorizou a entrada oficial na Venezuela. Segundo o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, em informações publicadas pelo The New York Times, a missão durou cerca de duas horas e 20 minutos e envolveu 150 aeronaves, entre caças F-18, EA-18, E-2, bombardeiros B-1 e unidades não tripuladas, que trabalharam para desmantelar as defesas aéreas venezuelanas e abrir caminho para os helicópteros que transportavam as tropas até Caracas. Quase 200 membros das Forças de Operações Especiais participaram da ação, segundo o secretário de Defesa, Pete Hegseth, em declaração ao jornal norte-americano.

A resistência foi maior do que o planejado. De acordo com as iniciativas jornalísticas Monitor de Víctimas e La Hora de Venezuela, os ataques deixaram 77 mortos. Ao menos 42 eram militares venezuelanos e outros três, civis. Entre as vítimas, 32 eram cubanos que cumpriam missões em representação das Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior de Cuba. Do contingente americano, nenhum soldado morreu. As 77 vidas tiradas se somam a outras 115 vítimas de 35 colisões com embarcações americanas registradas entre 2 de setembro e 31 de dezembro de 2025, segundo o New York Times.

Em meio aos ataques, civis continuavam sem saber ao certo o que estava acontecendo e quem estava no comando. Na internet, uma pergunta circulava sem resposta: “onde está Maduro?”.

04h17 a.m. Caracas

Um dos primeiros pronunciamentos oficiais de um chefe de Estado não veio da Venezuela nem dos Estados Unidos. A 1.413 km de Caracas, Gustavo Petro, presidente da Colômbia, confirmava os bombardeios e convocava sessão de urgência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em suas redes sociais, anunciou que as Unidades de Mobilização Popular estavam preparadas em Cúcuta e que o plano operacional já estava em vigor na fronteira. Meia hora depois, publicou um comunicado no X, pedindo desescalada, diálogo e canais diplomáticos. Divulgou, também, medidas para proteger civis e conter qualquer crise humanitária ou migratória na fronteira com a Venezuela.

Fonte: X (antigo Twitter) @petrogustavo

Fonte: X (antigo Twitter) @petrogustavo

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se pronunciou por volta das 9h venezuelanas (10h em Brasília). Em suas redes sociais, condenou os ataques. 

Fonte: X (antigo Twitter) @LulaOficial

Segundo o cientista político e professor de Relações Internacionais Maurício Santoro, a intervenção dos EUA na Venezuela traz preocupações para o governo brasileiro. “O fato de que os americanos intervieram de uma maneira tão bem-sucedida na Venezuela abre a possibilidade de que eles queiram fazer isso novamente em outros países da América Latina”. O especialista explica que novos ataques na região poderiam repercutir negativamente na economia e na política do Brasil. 

Assim como Lula e Petro, líderes de outros países, aos poucos, começaram a reagir. Mas o que estava acontecendo naquela madrugada era resultado de um extenso e complexo jogo político.

Em novembro, Trump e Maduro chegaram a conversar por telefone. Os contatos terminaram sem progresso nas negociações. Segundo o The New York Times, Maduro resistiu a qualquer acordo que implicasse deixar o poder. Na ligação, insistiu que estava pronto para discutir um pacto de combate ao narcotráfico e negou que drogas fossem produzidas em território venezuelano. 

Menos de 24 horas antes de ser capturado, na sexta-feira, 2 de janeiro, Maduro recebeu no Palácio de Miraflores Qiu Xiaoqi, enviado especial do presidente chinês Xi Jinping para a América Latina. Segundo a VTV, em matéria publicada no Efecto Cocuyo, a reunião avaliou a cooperação bilateral e reforçou a parceria estratégica entre os dois países. Analistas interpretaram a visita como uma demonstração de apoio de Pequim ao governo Maduro em meio à crescente pressão norte-americana, com a presença militar dos Estados Unidos já consolidada no Caribe.

Enquanto diplomatas trocavam declarações e chanceleres pediam diálogo, as aeronaves americanas já estavam no ar. O que aconteceu nos céus de Caracas naquela madrugada foi estrategicamente planejamento. E nos minutos seguintes, o mundo veria como.

5h21 a.m. Caracas

Fonte: Prensa Presidencial Venezuela

Fonte: Prensa Presidencial Venezuela

“Os Estados Unidos realizaram com sucesso um ataque em larga escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi capturado junto com a esposa e levado para fora do país. Esta operação foi conduzida em conjunto com as forças de segurança dos EUA. Mais detalhes em breve. Haverá uma coletiva de imprensa hoje às 11h em Mar-a-Lago”, anunciou o presidente norte-americano Donald Trump, em suas redes sociais.

Fonte: Prensa Presidencial Venezuela

Fonte: Prensa Presidencial Venezuela

A intervenção foi aprovada por Trump, por volta das 22h30 da noite anterior, em um jantar com assessores e secretários de gabinete, no luxuoso Mar-a-Lago. Localizado em West Palm Beach, na Flórida, o resort foi adquirido por Trump em 1985 e transformado em clube privado 10 anos depois.

A escolha da data foi estratégica. Segundo um oficial americano ouvido pelo jornal The New York Times, os militares queriam operar durante o período de festas justamente porque muitos funcionários do governo venezuelano estavam de folga e um número significativo de militares se encontrava de licença. Assim, no começo do ano, Trump deu continuidade a um plano que se arrastava desde seu primeiro mandato: prender Nicolás Maduro.

Em março de 2020, o governo estadunidense, sob liderança de Trump, havia ordenado que o Departamento de Justiça indiciasse Maduro por conspiração de narcoterrorismo e tráfico de cocaína. Na época, Washington ofereceu 15 milhões de dólares (quase R$ 126 milhões) por informações que levassem à sua prisão. Maduro negou qualquer envolvimento.

Cinco anos depois, em agosto de 2025, a recompensa saltou para 50 milhões de dólares (R$ 248 milhões na cotação atual). Como justificativa, o governo norte-americano passou a classificar Maduro como líder do Cartel de los Soles, classificado como organização terrorista global em julho daquele ano. Durante uma entrevista coletiva no Pentágono, o secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou que a designação traria "uma série de novas opções" para lidar com os narcoterroristas na região.

De acordo com especialistas e ex-funcionários da Drug Enforcement Administration (DEA), ouvidos pelo The New York Times, o Cartel de los Soles não é uma organização no sentido literal. Trata-se de uma expressão venezuelana que remonta aos anos 1990 para se referir a militares corrompidos pelo dinheiro do narcotráfico. O termo é uma alusão irônica aos sóis que os generais venezuelanos usam para indicar sua patente. Por essa razão, nem a Avaliação Nacional Anual de Ameaças de Drogas da DEA nem o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU mencionaram o grupo em seus documentos.

As autoridades americanas, entretanto, acusam o Cartel de los Soles de trabalhar com a organização criminosa Tren de Aragua para enviar narcóticos aos Estados Unidos. Essa foi uma das justificativas apresentadas pela Casa Branca para as ações desenvolvidas no 3 de janeiro de 2026.

Logo após o pronunciamento de Trump, na manhã do sábado, o ministro da Defesa venezuelana, Vladimir Padrino López publicou um vídeo nas redes sociais. "Esta invasão representa a maior afronta que o país já sofreu, motivada pela ganância insaciável por nossos recursos estratégicos", disse. Pediu que se evitasse "o caos e a anarquia", que classificou como "armas tão letais quanto as bombas", e encerrou com uma declaração: "eles nos atacaram, mas não nos derrotarão".

Fonte: Instagram @padrinovladimir

Fonte: Instagram @padrinovladimir

Enquanto isso, a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, fez sua primeira declaração oficial após os ataques.  Para a emissora estatal VTV, em mensagem telefônica, denunciou um "ataque aéreo brutal" e exigiu do governo americano uma "prova imediata de vida" de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. "Não sabemos o paradeiro de Nicolás Maduro e da primeira-dama. Exigimos que o governo do presidente Donald Trump forneça provas imediatas de que estão vivos".

De um lado, Washington celebrava uma operação concluída. Do outro, Caracas denunciava uma agressão e pedia justiça. Restavam dúvidas do paradeiro do casal e da legitimidade da intervenção americana perante o direito internacional.

09 a.m. Caracas 

Por volta das 9h00, horário de Caracas, a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pamela Bondi anunciou que Nicolás Maduro e Cilia Flores seriam julgados em solo americano por crimes envolvendo tráfico de drogas e porte ilegal de armas. Na acusação revisada, os promotores abandonaram a tese de que o Cartel de los Soles era uma organização criminosa. O grupo passou a ser descrito como um "sistema de clientelismo" e uma "cultura de corrupção" alimentados por dinheiro do narcotráfico.

Fonte: Casa Branca

Fonte: Casa Branca

A intervenção dos Estados Unidos à Venezuela, entretanto, ainda era questionada. O cientista político Maurício Santoro explica que, do ponto de vista do direito internacional, apenas duas situações autorizam um país a entrar em guerra: a legítima defesa, quando um Estado é atacado ou está prestes a ser atacado, ou uma determinação do Conselho de Segurança da ONU, como no caso de um genocídio. "Não houve, nessa situação da Venezuela, nenhuma dessas condições. O que a gente teve ali foi um ato de guerra, de violação das fronteiras, de violação da soberania, basicamente para atender alguns interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos", afirma.

Em comunicado oficial, publicado às 11h53 do mesmo dia, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressou profunda preocupação com o ataque e alertou que a ação constituía "um precedente perigoso" com potenciais implicações para toda a região, reiterando a necessidade de respeito integral ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas.

 O argumento norte-americano, entretanto, se apoiava em outro ponto: o não reconhecimento de Maduro como chefe de Estado legítimo. De acordo com a acusação publicada pelo governo dos EUA, ele não era um "governante de fato", o que, na prática, significava que havia sido capturado como um cidadão comum venezuelano, não como um presidente. "Reconhecer ou não o Maduro como chefe de Estado tem consequências muito grandes numa situação como essa", explica Santoro. "Ainda que, do ponto de vista político, mesmo que não houvesse esse reconhecimento, ele era, de maneira muito evidente, na prática, o líder do governo venezuelano".

Nicolás Maduro assumiu a presidência 13 anos antes de ser capturado. Em 8 de março de 2013, três dias após a morte de Hugo Chávez, tomou posse como presidente interino da Venezuela, a pedido do líder bolivariano. Ao longo de mais de uma década, governou por meio de três eleições, nenhuma delas reconhecida como auditada ou plenamente democrática.

Em 2024, sob pressão internacional, o governo venezuelano se comprometeu a realizar eleições livres. Jornais do mundo todo se prepararam para o período eleitoral. “Formamos jornalistas para que pudessem cobrir esse processo, que era inédito, de certa forma, porque, pela primeira vez, as pesquisas mostravam uma clara preferência por um candidato de oposição”, conta a cofundadora e diretora do Efecto Cocuyo, Luz Mely Reyes.

Na madrugada de 29 de julho de 2024, entretanto, o Conselho Nacional Eleitoral anunciou a vitória de Maduro com 51,20% dos votos, sem divulgar os resultados desagregados. “A repressão pós-eleitoral, que se dá por protestos contra à fraude, levou à prisão mais de 2 mil pessoas, além da perseguição e o exílio de muitas outras pessoas”, diz Reyes.

Fonte imagens: Reuters e AFP

Para o cientista político Maurício Santoro, classificar o regime venezuelano exige uma aprofundada análise. "Em algum momento da década de 2010, quando Maduro se tornou presidente, a Venezuela já era considerada como um país que seguia essa transição do autoritarismo para o ditatorial. Quando a Venezuela virou uma ditadura de fato é algo que a gente pode discutir. Foi um processo gradual". O professor aponta como marco o cerceamento dos poderes do parlamento por parte de Maduro, após a oposição conquistar a maioria. "O Maduro nunca fechou o congresso venezuelano, embora tenha cerceado os poderes do parlamento, quando a oposição ganhou maioria lá. Para mim, inclusive, é o momento principal dessa transição. De maneira geral, sim, a Venezuela é considerada um regime autoritário".

Às 18h30, de 3 de janeiro, Nicolás Maduro e Cilia Flores desembarcaram na Base Aérea da Guarda Nacional Stewart, em Nova York, onde passaram a primeira noite sob custódia no Centro de Detenção Metropolitano, uma prisão federal no Brooklyn.

Enquanto isso, na capital, a Suprema Corte da Venezuela emitia uma ordem. Delcy Rodríguez, que horas antes exigia publicamente provas de que Maduro estava vivo, estava pronta para assumir o cargo de presidente interina do país.

O dia sem fim

Ainda na tarde do sábado, a Câmara Constitucional do Supremo Tribunal de Justiça (TSJ) da Venezuela determinou que Delcy Rodríguez assumisse a presidência da República em caráter interino. Rodríguez resistiu. Em rede nacional, insistiu que o único presidente legítimo do país era Nicolás Maduro. Ainda assim, sinalizou disposição para dialogar com os Estados Unidos com uma "agenda construtiva". Na segunda-feira, dia 5, tomou posse oficialmente perante a Assembleia Nacional, presidida por seu irmão Jorge Rodríguez, que reiterou que Maduro permanecia o presidente legítimo do país.

Com 56 anos, Delcy Rodríguez tornou-se a primeira mulher na história da Venezuela a chefiar o Poder Executivo. Formada em Direito pela Universidade Central da Venezuela, com especialização em Direito do Trabalho e Sindicalismo na França,  construiu sua trajetória política à sombra de Chávez. Sua ascensão ocorreu no governo de Maduro, ao ocupar os ministérios da Comunicação, da Economia, das Relações Exteriores e, mais recentemente, do Petróleo. 

A Venezuela que ela herdou é um país impactado não apenas pelos eventos daquela madrugada, mas por anos de crise econômica.

José Félix Rivas Alvarado conhece esse processo por dentro. Economista, professor, ex-diretor do Banco Central da Venezuela por nove anos, ex-vice-ministro de Desarrollo Económico, ex-embaixador no Mercosul e ex-ministro de Industrias y Producción Nacional, ele acompanhou de perto cada etapa da crise. Para ele, o ponto de partida foi 2015, quando o decreto do presidente norte-americano Barack Obama formalizou o que o economista chama de “bloqueio”. "Alguns chamam de sanções. Não é o termo mais correto, porque ninguém tem direito de sancionar outro. Aqui na Venezuela, chamávamos tecnicamente de medidas coercitivas unilaterais", explica. A estratégia, segundo ele, envolvia isolar a economia venezuelana e deteriorar as condições sociais da população.

A suspensão da participação do país no Mercado Comum do Sul (Mercosul) aprofundou esse isolamento, acrescenta o professor. Em 2016, durante o período em que Rivas Alvarado atuava como embaixador do bloco, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai suspenderam a Venezuela, após o governo de Maduro não incorporar à legislação nacional uma série de disposições comerciais e políticas, incluindo normas de direitos humanos. Para Rivas Alvarado, a decisão foi política. "A saída, ou a forma como tiraram a Venezuela do Mercosul, foi uma decisão totalmente política, alinhada com Washington. Foi uma instrução de Washington", afirma. O economista descreve a experiência como "traumática". "Ninguém gostaria de ser removido dessa forma tão desagradável de uma casa que deveria ser uma casa de integração".

Com a suspensão do bloco, o acesso a produtos industriais brasileiros e argentinos foi interrompido, assim como o fornecimento de medicamentos uruguaios. No campo econômico, as "medidas coercitivas unilaterais" americanas derrubaram a produção petrolífera e comprometeram a principal fonte de renda do país.

Naquele 3 de janeiro, apesar do caos, a estrutura do chavismo permanecia quase intacta, segundo o economista. "O legislativo, o judiciário, todos os poderes ficaram intactos, com exceção de um pequeno detalhe: temos um presidente sequestrado", observa.

Trump, por sua vez, deixou claro desde a primeira coletiva em Mar-a-Lago que já se considerava no comando e já havia falado com Rodríguez. "Ela está essencialmente disposta a fazer o que achamos necessário para tornar a Venezuela grande novamente. Muito simples", declarou à imprensa. "Ela foi, acho, bastante cordial, mas na verdade não tem escolha. Vamos fazer isso da maneira certa. Não vamos simplesmente arrombar a porta e depois ir embora, como todo mundo faz, dizendo: 'deixa virar um inferno'".

Os reflexos do 3 de janeiro se estendem para além de 24 horas. O que estava - e ainda está - em jogo era um tabuleiro político complexo, uma disputa por recursos estratégicos e uma guerra de narrativas.

Fonte: Reuters/Getty Images

Fonte: Reuters/Getty Images

Depois da intervenção em Caracas, pairava no ar a expectativa entre os venezuelanos para saber o que aconteceria dali em diante. Ainda no dia 3 de janeiro, Trump fez um pronunciamento em Mar-a-Lago que prendeu a atenção do mundo e revelou os planos para o futuro da nação. “Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, declarou durante coletiva de imprensa. 

Pelas redes sociais, o líder estadunidense usa com frequência imagens e simbologias irônicas para reforçar a ideia de influência e poder sobre a Venezuela. Pouco mais de uma semana depois da captura de Maduro, Trump publicou no Truth Social uma foto falsa da sua página da Wikipedia, em que o identificava como “presidente interino da Venezuela”. Outras publicações foram feitas no mesmo tom de discurso expansionista. No começo do mês de maio, compartilhou um desenho do mapa do país sulamericano preenchido com a bandeira dos EUA, como se fosse o “51º estado norte-americano”. 

Fonte: Truth Social @realDonaldTrump

Fonte: Truth Social @realDonaldTrump

Desde o início da execução do plano trifásico de mudança de regime, o presidente norte-americano não escondeu que a intenção de dominar o país era para explorar suas reservas de petróleo. De acordo com o relatório estatístico publicado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em 2025, o país sul-americano tem reservas estimadas em 303 bilhões de barris de petróleo, o equivalente a 17% do total mundial. No entanto, a produção atual é muito inferior à sua capacidade, representando apenas 1% da produção mundial

“Nossas grandes empresas petrolíferas americanas irão investir bilhões de dólares para consertar a infraestrutura danificada e começar a gerar riqueza para o país”, disse Trump também no dia da captura de Maduro, ao sugerir que recuperaria a infraestrutura do petróleo que, de acordo com ele, teria sido “roubada” das empresas norte-americanas. A indústria petrolífera da Venezuela foi nacionalizada em 1976 e, em 2007, o então presidente Hugo Chávez reforçou o controle estatal sobre os ativos que restavam em propriedade estrangeira. 

Com o objetivo de recuperar aquilo que julgam lhes pertencer, os EUA passaram, nos meses seguintes ao 3 de janeiro, a flexibilizar diversas sanções que haviam sido impostas, à medida que a Venezuela abria o mercado de petróleo ao exterior. 

Uma das primeiras grandes medidas do governo interino de Delcy Rodríguez foi a reforma parcial da Lei Orgânica sobre Hidrocarbonetos, que afrouxou o controle da empresa estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) sobre o setor petrolífero, buscando atrair investimentos privados e estrangeiros. Com isso, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA emitiu a licença geral 46, em 30 de janeiro, passando a permitir que empresas norte-americanas realizem atividades como extração, comercialização e venda de petróleo de origem venezuelana. 

Essa autorização, no entanto, estabeleceu algumas condições. Ficou proibido qualquer tipo de transação relacionada com países como Cuba, Rússia, Irã ou Coreia do Norte, além de restrições à China. O documento ainda fixou que todos os contratos devem ser regidos pela jurisdição estadunidense e as empresas precisam enviar relatórios detalhados regularmente. Depois dessa medida, outras licenças foram emitidas, concretizando pouco a pouco os interesses dos EUA. A principal delas até agora foi a licença geral 52, aprovada em 18 de março, que reduziu significativamente as restrições e passou a autorizar de forma ampla operações de petróleo.

Toda essa movimentação faz parte de uma estratégia otimista de Washington. O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, projetou um crescimento de 30% na atual produção de petróleo da Venezuela de 900 mil barris por dia, representando uma alta de quase 300 mil barris a curto prazo. Para o cientista político Maurício Santoro, ainda é cedo para dizer se a intervenção americana foi bem sucedida. “Ela foi bem sucedida até agora”. 

Com a reaproximação diplomática entre os dois países, também foram retomados voos comerciais entre Miami e Caracas. Após quase sete anos de interrupção, um avião da Envoy Air, subsidiária da American Airlines, inaugurou a reabertura dos espaços aéreos, em 30 de abril, levando empresários, representantes do governo dos EUA e jornalistas até o Aeroporto Internacional Simón Bolívar.

“Mas tudo é muito frágil ainda. Inclusive, pela Constituição, Delcy não poderia completar o mandato de Maduro e teria que convocar novas eleições presidenciais”, destaca Santoro sobre a situação que ainda gera grandes incertezas para o povo venezuelano.

Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1

Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres

Florianópolis, 30 de junho de 2026

Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo