Uma mistura perfeita entre o doce e o salgado caracteriza o famoso confeito venezuelano Cagaleras. Uma espécie de pão recheado e servido em rodelas, o doce se assemelha ao famoso cinnamon roll, mas, diferente deste, não leva canela no recheio e sim queijo e papelón, conhecido no Brasil como rapadura. Pela fama e tradição, os pãezinhos doces são vendidos em todas as padarias da Venezuela e, por muito tempo, estiveram presentes na mesa de Luzmery Medina e Ricardo Battistini. Ao deixar o país em 2009, o casal também deu adeus às Cagaleras.
Hoje, Luzmery, com 48 anos, tem sua própria confeitaria em Florianópolis (SC), mas os doces da infância não fazem parte do cardápio. “Eu me adaptei ao paladar brasileiro”, explica. O negócio começou com bolos até chegar aos biscoitos decorados, os mais vendidos em períodos festivos. Assim como a esposa, Ricardo, também com 48 anos, trabalha como comerciante. Filho de mãe brasileira e pai venezuelano, ele nasceu no Brasil, mas passou a vida migrando entre os dois países. Foram cerca de 20 anos na nação hispanofalante, onde cursou a graduação e conheceu Luzmery. Em Puerto Ordaz, cidade de origem de Lu, como é carinhosamente apelidada, os dois criaram um lar.
O trabalho do casal nem sempre foi voltado às vendas. Ela se formou em Administração de Empresas e ele, em Direito. Ao concluir a universidade, trabalharam como servidores públicos para o Estado venezuelano. “Ser servidor público foi um sonho para todo mundo por um determinado período de tempo”, conta Luzmery. “Éramos um setor bastante produtivo e isso tinha reflexo nos salários e nos benefícios. Dava para a gente se empolgar”.
Com o tempo, a polarização política começou a ganhar força na Venezuela. “A gente já não falava mais de trabalho, apenas dos planos políticos do governo e, assim, começou a cair a produção e começaram a tirar os benefícios dos trabalhadores”. Convocações a Caracas para homenagear o presidente Hugo Chávez passaram a fazer parte do trabalho da funcionária do setor de contabilidade e de seu marido. A renda, entretanto, só diminuía.
A despedida da Venezuela se deu às pressas quando nasceu a filha do casal, Camila Battistini, que hoje tem 18 anos. Com a chegada da nova integrante à família, os salários baixos e a falta de serviços básicos, como gasolina, comida e segurança, tornaram-se insustentáveis. “A gente estava fazendo fila para comprar itens de primeira necessidade, coisa básica. Fomos obrigados a tomar essa decisão. E olha o que chegou a acontecer depois. A Venezuela ficou totalmente destruída e politizada”, conta Luzmery.
Irmãos, primos, vizinhos. Luzmery e Ricardo não foram os únicos a deixar o país. Pessoas que costumavam morar a algumas portas de distância, hoje se separam por milhares de quilômetros, línguas, costumes. “Meus irmãos saíram anos depois. Foram todos para o Chile”, conta Luzmery.
O medo, para Luzmery e Ricardo, fazia parte do cotidiano e eles não queriam que a filha crescesse dessa forma. “Eu lembro que, quando a Camila era bebezinha, eu ia para o shopping e tinha que ligar para o meu pai, para o Ricardo, para minha sobrinha, qualquer um que pudesse me buscar. Se não estacionava perto da porta, era perigoso. Havia muitos sequestros, roubos e homicídios”.
Apesar de atualmente morar na capital mais segura do Brasil, de acordo com o Anuário Cidades Mais Seguras do Brasil 2025, elaborado pela MySide, Luzmery ainda se assusta quando vê mulheres deixando suas bolsas em mesas para guardar o lugar ou pessoas usando o celular na rua, sem preocupações.
Mesmo com as diferenças culturais e sociais, em Florianópolis, eles contam que construíram um lar, fizeram amigos e, assim, criaram uma comunidade. Entretanto, bate a saudade do país e da língua espanhola. Para tentar manter o que restou da origem, dentro de casa, só falam espanhol.
A beleza do país, guardada na memória de Lu, não é suficiente para fazê-los voltar. Mas já começam a planejar a viagem para visitar os avós que nunca conseguiram deixar a cidade onde criaram uma família, hoje espalhada pelo mundo.
Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1
Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres
Florianópolis, 30 de junho de 2026
Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo
