“Solo quiero regresar el tiempo más atrás, cuando no sabía que tendría que cambiar. Solo quiero regresar el tiempo mucho más atrás y quedarme ahí por una eternidad”.
Misael Rodriguez, de 24 anos, escreveu o trecho para a canção “2017”, na qual retrata seus sentimentos ao precisar sair da cidade de Valência, na Venezuela, aos 15 anos, para recomeçar a vida no Brasil ao lado dos pais e dos dois irmãos.
Em uma família de artistas, a música teve papel importante no processo de migração em Boa Vista (RR), onde se estabeleceram. Antes de aprender a falar português, Misael já conseguia cantar no idioma, o que possibilitou se expressar e criar conexões na escola onde completou o Ensino Médio. “Isso abriu muitas portas”. No início, a mãe deu aula de canto e o pai aula de violão, ambos voluntariamente, na mesma escola. “Era uma forma deles criarem um vínculo e fazerem o networking deles”.
No dia da mudança para o país vizinho, no final de tarde de uma segunda-feira, durante as férias, cada membro da família carregou um instrumento em uma mão e uma mala na outra. Um baixo, um teclado, uma guitarra e dois violões. A cena ainda é vívida na cabeça do músico, que relembra a dor que sentiu ao se despedir de tudo aquilo que conhecia.
O choro se prolongou durante todo o trajeto entre o apartamento e a rodoviária, um sofrimento justificável para alguém que não escolheu se tornar imigrante. “Sempre digo que a nossa migração foi forçada porque a gente não decidiu sair da Venezuela, foi uma decisão dos meus pais”.
Uma das principais razões que motivou a escolha dos pais foi a carência de um sistema de saúde efetivo na Venezuela. Veronica Rodriguez de Romero, de 54 anos, mãe de Misael, é diabética e os remédios que precisava tomar estavam em escassez no país. Quando encontravam, eram muito caros. Diante disso, para o pai, José Alberto Romero, de 50 anos, era muito importante que a esposa conseguisse atendimento e medicamentos pela rede pública.
Antes de toda a família se mudar, Veronica havia passado uma semana em Boa Vista. Quando voltou para Valência, trouxe esperança. “Ela falou sobre o SUS, falou sobre muita coisa que lá era impossível”.
Hoje, Misael não vive mais com a família em Boa Vista. Em dezembro de 2025, casou-se com a brasileira Stefhany Martins e mudou-se para o outro extremo do país, em Florianópolis (SC). Um dia após a lua de mel, veio a notícia “chocante” de que Maduro havia sido capturado.
Depois que soube da intervenção dos Estados Unidos, o músico enviou mensagens para familiares e amigos que vivem na Venezuela para entender como estavam e as expectativas para o futuro. “Num grupo de cinco pessoas, três podem falar que a situação a qualquer momento pode melhorar e que estão só esperando. Outros já não têm muita esperança e falam ‘é isso que temos e vamos viver um dia de cada vez, porque não sabemos o que vai acontecer amanhã’”.
Há oito anos vivendo no Brasil, Misael já não se sente mais tão afetado pelo que acontece no país de origem. Ainda assim, não esquece da sua identidade e da sua trajetória como imigrante. Sua história inspirou o tema do EP “Eu não era daqui” da banda Paraquedas, da qual faz parte. As quatro faixas lançadas em maio de 2026 contam os desafios de reconstruir sonhos em um novo país, aprender uma nova língua e se encontrar artisticamente. Mais do que nunca, a música segue como grande aliada.
Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1
Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres
Florianópolis, 30 de junho de 2026
Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo
