Lucia Martinez Salas, de 75 anos, trabalhou mais da metade da vida como professora de educação na Universidad Pedagógica Experimental Libertador (UPEL), em Maturín, no estado Monagas. Localizado a 503 km de Caracas, o município venezuelano foi onde Lucia cresceu, teve sua família e mora até hoje. Por muitas vezes, a professora aposentada desejou deixar o país, assim como fez a sobrinha Luccardina. Porém, questões financeiras e legais dificultam sua saída. Ela é dona de salas comerciais, a maioria vazias, que estão em processo judicial e não podem ser vendidas. Dessa forma, a pensão da aposentadoria e os benefícios do governo, que somam cerca de 200 dólares (R$ 1.011,01), são as únicas fontes de renda que recebe para viver e contribuir com o tratamento do filho, Manuel Francisco de la Puente, de 47 anos, diagnosticado com câncer em 2023.
“Tenho que ficar aqui por falta de dinheiro e para ver se conseguem operá-lo. Aqui, para fazer uma operação cirúrgica é preciso ter muitíssimo dinheiro, muito dólares para pagar uma clínica”. Lucia explica que o seguro social do filho fornece uma parte dos medicamentos usados na quimioterapia que custam entre U$S 1.500 e U$S 1.600 (o equivalente a R$ 7.555,65 e R$ 8.059,36).
De acordo com os últimos dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), no mesmo ano em que Manuel foi diagnosticado com a doença, em 2023, o percentual investido pelo Governo Venezuelano em saúde foi o menor das Américas, ficando em torno de 3,6% das despesas gerais do país. No mesmo ano, o Brasil investiu 9,5% das despesas públicas na área, enquanto Paraguai, Uruguai e Estados Unidos ultrapassaram os 21%. A porcentagem significou cerca de U$ 186 investidos por venezuelano, abaixo da marca de U$ 1.010 investido pelo Brasil.
Manuel passou por 24 sessões de quimioterapia ao longo dos três anos de tratamento e, quando esteve apto a realizar a cirurgia para retirada do tumor, havia 99 pacientes na sua frente. “Cada paciente desses 99 ia ser operado de 15 em 15 dias e não havia terapia intensiva, nem um único quirófano para os cânceres de cabeça e colo”.
Sem cirurgia, ele precisou retornar para o tratamento quimioterápico, enquanto Lucia ainda luta para conseguir pagar os medicamentos do filho. Ver Nicolás Maduro ser tirado do poder deu à família esperança de um futuro melhor. “A maioria, eu diria, da população se alegrou, porque nós temos 27 anos, praticamente, de uma ditadura que não nos deixa viver em paz”, admitiu na segunda entrevista remota, realizada dentro de casa. Na primeira, ela estava em um local público, e a conversa precisou ser interrompida quando Lucia avistou pessoas se aproximando. O medo falou mais alto.
Meses após a captura de Maduro, ela ainda escolhe as palavras com cuidado. "Ainda estão colocando pessoas na cadeia. As entidades públicas são chavistas", diz, baixando a voz. Por isso, explica, não podia falar muito.
“Todavía, el infierno está”.
Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1
Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres
Florianópolis, 30 de junho de 2026
Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo
