“Eu não sou o tipo de imigrante desejado”. É o que acredita Merlina Saudade Ferreira Neira, 43 anos, que em 2016 deixou tudo para trás na Venezuela para morar no Brasil com o marido Jose Rafael Gonzalez e os dois filhos. Enquanto muitos esperam  que o imigrante seja grato ao país de acolhida a qualquer custo, ela critica e questiona.

Antes de migrar, a psicóloga era professora na universidade onde se formou e o marido era promotor em uma controladoria municipal. O salário insuficiente para sobreviver, as longas filas para conseguir comprar comida e a discordância familiar por causa da política foram os fatores que motivaram o casal a cogitar sair da cidade de Maracay, no norte do país, em busca de melhores condições para criar os filhos. A gota d’água que selou a decisão da partida foi o segundo parto, que a deixou à beira da morte. “Quando eu me recuperei, quis sair. Eu não consegui lidar com toda a crise e o contexto que a gente estava vivendo”. 

A entrada no Brasil não foi tão simples. Na época, ainda estava em vigor o Estatuto do Estrangeiro (Lei nº 6.815/80), criado no contexto da ditadura, que tratava pessoas de outros países como ameaça e estabelecia regras rígidas para a permanência de estrangeiros no país. Foi somente em 2017 que o texto foi revogado, com a instituição da nova Lei de Migração (Lei nº 12.445/2017). A partir daquele momento, Merlina e sua família tiveram o processo de regulamentação um pouco mais facilitado. Ela destaca a Portaria Interministerial nº 9/2018, que regulamentou a concessão de autorização de residência no Brasil para imigrantes de países fronteiriços onde não havia o Acordo de Residência para Nacionais do MERCOSUL.

Os primeiros dois anos vivendo em território brasileiro foram em Boa Vista, Roraima, cidade do extremo norte. Permaneceram na cidade até conseguirem dinheiro suficiente para sair, já que não enxergavam um futuro próspero ali. Decidiram, então, mudar para Florianópolis, Santa Catarina (SC), mas o encanto da Ilha da Magia durou pouco. “Inicialmente, era para ser legal. Todo mundo falava bem. Aparece como a melhor cidade para viver. Mas o que não fala no Google é que é a melhor cidade para viver se você tem recursos, se você é branco e tem diploma”.

Se a magia fosse real, Merlina, que é branca e tem formação universitária, não deveria, então, enfrentar muitas dificuldades para recomeçar a vida na capital catarinense. Mas não foi o que aconteceu. Até mesmo a revalidação do diploma foi um processo complexo, demorado e que precisou de ajuda externa para que fosse concluído. Essa é uma etapa obrigatória para que pessoas com formação universitária estrangeira possam atuar na área no Brasil. As universidades públicas, responsáveis pela revalidação de diplomas, têm autonomia para cobrar as taxas. Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o valor total pode chegar a R$ 3.000.

Essa é uma realidade de muitos venezuelanos que chegam ao Brasil. De acordo com a Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados, 25,6% de quem migra da Venezuela têm formação técnica. Hoje, a psicóloga trabalha em uma empresa que ajuda outros imigrantes no processo de revalidação do diploma e na inserção profissional. Apesar de atuar em uma área próxima à da sua formação, ela ainda deseja voltar a trabalhar com algo semelhante ao que fazia no país de origem. Para isso, realiza um mestrado sobre a identidade profissional de imigrantes venezuelanos, na UFSC, com o objetivo de romper as barreiras que limitam sua carreira e a de seus compatriotas.

O contato com venezuelanos vai além do ambiente profissional e da universidade. Com a família espalhada pelo mundo - a mãe e a irmã mais nova moram no Peru, a irmã do meio no Rio de Janeiro e o pai em Portugal - Merlina faz parte de uma rede ampla de imigrantes que vivem em Santa Catarina. 

Hoje, não quer voltar para o país de origem. “Eu sinto muito medo de voltar. Porque eu tenho falado muito fora da Venezuela sobre a Venezuela. E aí eu fico com medo, né? Tem pessoas que foram presas e eu não quero passar por isso, nem fazer meus filhos, nem minha família passar por isso. Então eu prefiro ficar”.

Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1

Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres

Florianópolis, 30 de junho de 2026

Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo