Com pouco menos de um ano e meio vivendo em Florianópolis, Orlando Morales, 35 anos, já conhece bem as ruas da cidade. É nas conversas com passageiros durante seu trabalho como motorista de aplicativo que aprende a falar português e percebe que os brasileiros não são tão diferentes dos venezuelanos. “Eu falo com todo mundo e sempre digo que a cultura do Brasil é muito parecida com a da Venezuela. Chega fim de semana, todo mundo quer pegar uma cervejinha com churrasco”.
Formado em Engenharia Civil, Orlando traçou um plano ao chegar no Brasil: trabalhar como Uber até concluir o processo de homologação do diploma universitário para, então, atuar na sua área. Logo nos primeiros meses, ele conseguiu validar a carteira de motorista e comprou um carro, um Kwid Renault preto. No entanto, não esperava que a rota fosse mudar alguns meses mais tarde.
Foi depois de uma noite de corridas, enquanto navegava nas redes sociais durante a madrugada, que o venezuelano, nascido em São Fernando de Apure, a 300 km de Caracas, soube da intervenção dos EUA que levou à captura de Maduro. Depois daquele dia, decidiu que queria voltar para casa. “A situação política na Venezuela está voltando a ficar melhor. Agora está acontecendo uma transição”, disse Orlando, que pretende retornar ao país de origem entre julho e agosto.
Ele sente muita falta da família. Apesar de o irmão mais velho, José Vicente Morales Maldonado, também morar em Florianópolis, o venezuelano não esconde a saudade do pai, da mãe e dos amigos. Estão todos lá. “Sempre faltam coisas que não se consegue em outro lugar”.
Antes de começar um novo capítulo em solo brasileiro, a jornada de Orlando como imigrante teve início em outro país sul-americano. Em busca de melhores oportunidades de emprego, ele empacotou sua vida em duas malas e, em 2018, se mudou para Lima, capital do Peru. Mas a experiência não foi muito positiva. “Lá também aconteciam muitos problemas políticos. Então, eu não pude conseguir trabalho porque a obra em que eu estava trabalhando fechou também”, contou, ao lembrar que praticamente a mesma situação aconteceu na Venezuela, onde, na última década, a taxa de desemprego concentrou-se em torno de 5%, segundo dados do Banco Mundial. Em 2020 e 2021, esse valor chegou aos 7%.
Diante do cenário desfavorável similar no Peru, José, que vive há mais de seis anos na Ilha da Magia e é dono do restaurante Bom Comer, localizado no centro da cidade, falou sobre a qualidade de vida da cidade e logo convenceu Orlando a se mudar para o sul do Brasil.
Ainda que atualmente Orlando se sinta bem onde está, acredita que é sua obrigação retornar para ajudar na reconstrução do país com seu aporte político, social e econômico. “Se eu não for ajudar a construir, quem mais vai fazer?”. Sem saber quando as próximas eleições presidenciais acontecerão, ele reforça a importância de se mobilizar.
Além dos objetivos coletivos, o engenheiro também tem projetos pessoais que deseja realizar na terra natal. Imaginando um futuro próspero, compartilha que quer criar uma empresa para produção animal e uma construtora na qual possa seguir atuando na sua área de formação. “São muitas coisas que quero fazer lá”. Desde o dia 3 de janeiro, a revalidação do diploma deixou de ser prioridade, dando lugar ao desejo de retorno à casa.
Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1
Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres
Florianópolis, 30 de junho de 2026
Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo
