Quando o show termina
Entenda o campo profissional de
bailarinos em espetáculos musicais

Na noite do dia 03 de maio, sábado, Kelwin de Oliveira, de 21 anos, repassou mentalmente a lista de músicas que o artista Mano Brown apresentaria no show que começaria dali a um minuto. Ele sabia que seus amigos estavam na frente do palco, esperando para vê-lo dançar junto a um dos maiores nomes do rap nacional. Kelwin respirou fundo e sentiu o coração disparar. As primeiras batidas de “Você e Eu… Só!” chegaram aos ouvidos do dançarino e o pegaram de surpresa. O show ia começar. Ele se colocou em sua primeira posição no palco, localizado no Kartódromo Sapiens Parque, em Florianópolis.
Kelwin de Oliveira durante performance de Mano Brown em Florianópolis. (Foto: Pedro Guerrazzi)
Kelwin de Oliveira durante performance de Mano Brown em Florianópolis. (Foto: Pedro Guerrazzi)
Foi dessa maneira que os quatro bailarinos da capital catarinense foram escolhidos para o show no ARVO Festival. Durante uma festa em São Paulo, a bailarina e modelo Isadora Satiê, a Isa Japonega, conheceu o dançarino Drama, que também trabalha com o cantor Mano Brown. Dias depois, ela recebeu o convite para participar da apresentação do artista em Florianópolis e ficou responsável por indicar outros bailarinos pretos da região, que foram selecionados por meio de portfólio no Instagram.
O processo durou menos de um mês e passou por algumas etapas: contato inicial e seleção de bailarinos, envio de vídeos das coreografias, ensaio apenas com os profissionais de Florianópolis, ensaio geral com a equipe do artista e, finalmente, a performance no show.
Ronaldo SnoBrock, Wallace Martins, Drama, Kelwin de Oliveira, Júlia Milan e Isadora Satiê foram os responsáveis pela dança no show. (Foto: Arquivo pessoal)
Ronaldo SnoBrock, Wallace Martins, Drama, Kelwin de Oliveira, Júlia Milan e Isadora Satiê foram os responsáveis pela dança no show. (Foto: Arquivo pessoal)
Bastidores dos bailarinos selecionados e suas experiências durante o show do cantor Mano Brown
no ARVO Festival, em Florianópolis
O ensaio para o show do Mano Brown, que aconteceu na manhã do dia do festival, foi feito na sala 5 da escola de dança Cenarium, no bairro Itacorubi. (Foto: Nanda Honório)
O ensaio para o show do Mano Brown, que aconteceu na manhã do dia do festival, foi feito na sala 5 da escola de dança Cenarium, no bairro Itacorubi. (Foto: Nanda Honório)
Os dançarinos de Florianópolis já conheciam a base das coreografias e o ensaio com os coreógrafos serviu para "limpar os passos". (Foto: Nanda Honório)
Os dançarinos de Florianópolis já conheciam a base das coreografias e o ensaio com os coreógrafos serviu para "limpar os passos". (Foto: Nanda Honório)
"Vamos nos preparar para todas as músicas, porque o Brown gosta de improvisar no setlist", diz Ronaldo SnoBrock durante o ensaio. (Foto: Nanda Honório)
"Vamos nos preparar para todas as músicas, porque o Brown gosta de improvisar no setlist", diz Ronaldo SnoBrock durante o ensaio. (Foto: Nanda Honório)
As coreografias eram dividas em grupos: algumas músicas contavam com os seis dançarinos, outras em grupos de quatro. (Foto: Nanda Honório)
As coreografias eram dividas em grupos: algumas músicas contavam com os seis dançarinos, outras em grupos de quatro. (Foto: Nanda Honório)
Dançarinos com figurino representando o "branco da paz", parte da temática do show do Mano Brown. (Foto: Arquivo pessoal)
Dançarinos com figurino representando o "branco da paz", parte da temática do show do Mano Brown. (Foto: Arquivo pessoal)
Finalização do show do Mano Brown no ARVO Festival. (Foto: Arquivo pessoal)
Finalização do show do Mano Brown no ARVO Festival. (Foto: Arquivo pessoal)
Dançarinos e os artistas que estiveram presentes no show do Mano Brown. (Foto: Arquivo pessoal)
Dançarinos e os artistas que estiveram presentes no show do Mano Brown. (Foto: Arquivo pessoal)
Nem tudo são aplausos
Apesar dessas oportunidades pontuais, o dia a dia dos dançarinos na capital de Santa Catarina é de desvalorização e pouco espaço de crescimento. A remuneração, por exemplo, continua sendo um dos principais obstáculos para permanecer na profissão. A bailarina Júlia Milan, com mais de 20 anos de carreira e que integrou o balé do rapper Mano Brown em Florianópolis, afirma: “Foi um valor muito bom para esse trabalho, mas não é algo que se repita com frequência a ponto de sustentar um profissional na cidade”.
No caso do show do rapper, a soma do cachê, dos ensaios e do deslocamento resultou em aproximadamente R$ 950. A logística de escolher bailarinos das cidades em que os shows acontecem é uma oportunidade que movimenta o mercado regional, mas também diminui gastos da equipe de produção como transporte entre cidades e hospedagem do corpo de dança, por exemplo.
Kelwin de Oliveira na festa Mihstura. (Foto: Luiza Jobim)
Kelwin de Oliveira na festa Mihstura. (Foto: Luiza Jobim)
Essa desvalorização está ligada à estrutura do mercado da dança, especialmente fora dos eixos São Paulo e Rio de Janeiro. “Aqui é mais comum ver dançarinos em festas do que em shows”, diz Kelwin. Eventos como o Baile da Brum e o Mihstura são alguns dos espaços em que bailarinos conseguem se apresentar com frequência. Nesses lugares, a dança aparece como elemento de ambientação e performance livre. “Quando a gente se apresenta com algum DJ, não tem aquela preocupação de executar a coreografia perfeitamente e o show não é inteiramente coreografado”, explica.
Júlia afirma que a baixa remuneração resulta em múltiplas jornadas de trabalho: “A gente acaba tendo que virar professor, coreógrafo, bailarino, tudo junto, para dar conta de se sustentar dentro desse mercado”. Isa aponta que, em alguns casos, os dançarinos aceitem trabalhos com valores abaixo do ideal.
“Às vezes é isso ou nada e a gente
precisa de portfólio”
Apesar de os profissionais da dança verem as festas como uma alternativa viável, não as enxergam necessariamente como um espaço de crescimento. Normalmente, os cachês para esses tipos de trabalho são ainda menores, entre R$ 100 e R$ 200. “É bom para manter o corpo em movimento, para estar em cena, mas não é o tipo de trabalho que sustenta uma carreira”, avalia o dançarino Leonardo Reis, de 31 anos, que começou sua trajetória na dança em Florianópolis antes de migrar para São Paulo no início de 2024. A diferença, para ele, está na profissionalização: “Aqui [em São Paulo] tem ensaio, tem contrato, tem estrutura. Em Floripa, a gente improvisa muito”.
Diante disso, muitos dançarinos acabam seguindo os mesmos passos em busca de mais oportunidades. De acordo com Leonardo, “o mercado em Florianópolis não tem estrutura para quem quer viver de palco”. A pouca quantidade de editais e incentivos públicos agrava ainda mais o cenário. “A gente quase não tem locais culturais de acesso livre e para conseguir patrocínio é muito difícil”, lamenta Isa, que hoje também vive em São Paulo. Para ela, a qualidade de vida na capital catarinense é muito boa, mas a falta de estímulo à arte impacta diretamente os profissionais dessa área e gera um êxodo de artistas.
Em São Paulo, Leonardo precisou recomeçar sua carreira praticamente do zero. “Aqui eu era só mais um, mas é onde as oportunidades estão”. Hoje, o dançarino integra o balé do rapper KayBlack e já participou de shows com artistas como MC Livinho, além de ter coreografado clipes para nomes como Pocah e Lara Silva.
“Eu vim com metas claras e, em menos de um ano, consegui realizar todas”
Leonardo Reis nos bastidores para o show de Mc Livinho, que aconteceu na virada do ano de 2024 para 2025, na Avenida Paulista. (Foto: Reprodução redes sociais)
Leonardo Reis nos bastidores para o show de Mc Livinho, que aconteceu na virada do ano de 2024 para 2025, na Avenida Paulista. (Foto: Reprodução redes sociais)
É consenso entre os dançarinos entrevistados para esta reportagem que a presença de um corpo de dança em shows – e em outros ambientes, como comerciais, festas e apresentações – enriquece a proposta e entretém o público. Ronaldo, coreógrafo do Mano Brown, tem uma postura otimista sobre o futuro do mercado nacional: “Eu acredito que essa demanda, com o passar do tempo, vai aumentar cada vez mais. Quando a gente ia nos primeiros festivais, anos atrás, a gente não via tanta dança nos palcos, e hoje a gente já vê um pouco mais”.
Apesar desse movimento e dos relatos de experiências positivas, os dançarinos de Florianópolis ainda sentem que o mercado não enxerga a dança como parte essencial dos shows, tratando-a como um elemento complementar. Para ter estabilidade financeira e profissional, o foco dos bailarinos está no cotidiano, principalmente dentro de sala de aula. “Os shows são momentos de brilho, de respiro, de curtição, mas o dia a dia é o sólido, que faz a gente se manter de fato”, ressalta Júlia.
Fotos da capa: Arquivos pessoais