Os triatletas das artes
Atores de teatro musical buscam dominar
canto, dança e atuação em um mercado de incertezas
Por Marcelo Pedrozo
marcelovieirapedrozo@gmail.com

So I say thank you for the music, the songs I'm singing
Thanks for all the joy they're bringing
Who can live without it?
I ask in all honesty
What would life be?
Without a song or a dance, what are we?
So I say thank you for the music, for giving it to me
Então eu digo obrigada pela música, as canções que canto
Obrigada por toda a alegria que elas trazem
Quem consegue viver sem elas?
Eu pergunto com toda sinceridade
O que a vida seria?
Sem uma canção ou uma dança, o que seria de nós?
Então eu digo obrigada pela música, por dá-la a mim
Se a vida não é nada sem música e dança, o grupo reunido no Lagoa Iate Clube (LIC) talvez tenha tudo o que precisa. São 9 da manhã de um sábado e três pessoas cantam “Thank You For The Music”, do grupo pop ABBA, orientados pelo voice coach Sidarta Corrêa. Em outra sala, ao som de outra música do ABBA, o ensaio é de dança. Seis rapazes, vestidos de preto, a maioria de regata, suam, enquanto aprendem e praticam a coreografia de “Lay All Your Love On Me”. Em outro local, um pouco menor, mais sete jovens dançam ao som de “Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)”.
A coreografia de “Lay All Your Love On Me” reúne a maior parte do elenco masculino, e a de “Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)”, do feminino. (Vídeo: Marcelo Pedrozo)
A coreografia de “Lay All Your Love On Me” reúne a maior parte do elenco masculino, e a de “Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)”, do feminino. (Vídeo: Marcelo Pedrozo)
A rotina se repete todo sábado, das 9h às 13h30 — e, às vezes, até 17h30. É no espaço da produtora Movincena, no LIC, que o elenco de 25 pessoas prepara Mamma Mia! O Musical. Escrita originalmente pela dramaturga britânica Catherine Johnson em 1999, a peça reúne diversas músicas do grupo ABBA, ligando-as em um mesmo fio narrativo. É o que se chama de musical jukebox, quando um filme ou peça musical utiliza canções já existentes. Em 2008, a história foi adaptada para um longa-metragem, e, em 2025, o espetáculo chega a Florianópolis, com as falas, claro, traduzidas para o português — mas as canções, no original.
“A gente tem um ponto crucial, principalmente aqui no Sul, que as pessoas normalmente gostam muito de ABBA. Então a gente priorizou trazer uma experiência ABBA dentro do musical”, explica Sid. “A gente não vai cantar Rainha Dançante, a gente vai pra linha do ‘Dancing Queen’.”

Quando a Movincena, que produz o espetáculo Chicago anualmente desde 2021, pensou em uma segunda opção de show, Mamma Mia foi a escolha óbvia. Com as músicas do ABBA, a diretora Ana Garvik espera alcançar um público que vá além dos fãs de teatro. Outro fator que também pesou na escolha foram os custos de produção. “Você tem que pensar em muitas coisas e uma das principais é na despesa. E tanto Chicago quanto Mamma Mia têm um figurino muito fácil de fazer”, explica a diretora. A montagem não conta com apoio de leis de incentivo à cultura.
Três em um
Antes de uma pausa no ensaio, todo o elenco se reúne para dançar “Voulez-Vous”, “Money, Money, Money” e a música que dá nome ao espetáculo, “Mamma Mia”. Ao final, o supervisor coreográfico Anderson Anversi alerta: a maioria estava focando só no canto ou só na dança, negligenciando a outra habilidade. Essa é uma das maiores dificuldades quando se fala em teatro musical: é necessário dominar três formas de arte — atuação, música e dança — em uma só produção.
“Voulez-Vous” é um dos números mais trabalhosos, pela intensidade da coreografia. Na hora de ensaiar a dança, os vocais ficam comprometidos. Para tentar remediar a situação, alguém dá uma ideia: ensaiar só a música e, logo em seguida, correr para a sala de dança para treinar a coreografia completa. Fica para outro dia, porque hoje não dá tempo. Já é quase meio-dia, e é preciso unir todos os números e ensaiar o primeiro ato completo, do início ao fim.
Elenco ensaia os vocais de “Voulez-Vous”. Uma das partes mais difíceis é mesclar o canto com a coreografia. (Vídeo: Marcelo Pedrozo)
Elenco ensaia os vocais de “Voulez-Vous”. Uma das partes mais difíceis é mesclar o canto com a coreografia. (Vídeo: Marcelo Pedrozo)
“Cada artista sempre vai prestar atenção na sua parte mais deficitária. No meu caso, é a dança”, explica Júlia Rubra, que interpreta Donna em Mamma Mia. Para ela, o ator de teatro musical é “o triatleta das artes”.

Graduada em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Júlia tem uma banda e também dá aulas de canto, e esse é seu principal ganha-pão. Mas sua grande paixão é o teatro. Ela se mantém ativa no ramo de teatro musical desde 2005, seja como atriz ou como preparadora vocal. Enquanto interpreta Donna em Mamma Mia, também ensaia o espetáculo Purpurina.
Enquanto Mamma Mia é inspirado em um musical já existente, as canções e o texto de Purpurina são totalmente originais. Criada por André Sens e Jamil Vigano, a peça conta a história de uma casa de arte drag e é produzida pelo Laboratório em Design, Audiovisual e Transmídia (LAB DAT) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsistas de extensão da UFSC e voluntários do laboratório, coordenado pelo professor André Sens, desenvolvem ações transmídia relacionadas ao musical, como a manutenção de um perfil no Instagram e a organização de concursos de drags. Eles também apoiam o elenco nos ensaios e apresentações.
À esquerda, Júlia Rubra como a dona de casa Raquel; à direita, Jamil Vigano como seu filho Miguel, na primeira montagem de Purpurina, em 2022. Em 2025, Júlia revive a personagem e também assume a direção musical do espetáculo. (Foto: Reprodução/Joy Studios)
À esquerda, Júlia Rubra como a dona de casa Raquel; à direita, Jamil Vigano como seu filho Miguel, na primeira montagem de Purpurina, em 2022. Em 2025, Júlia revive a personagem e também assume a direção musical do espetáculo. (Foto: Reprodução/Joy Studios)
O teatro musical entrou na vida de Jamil Vigano a partir dos filmes da Disney — e ele teve a oportunidade de encenar diversos desses clássicos de infância enquanto esteve na Cia Grito de Teatro, entre 2012 e 2020. Fez Tributo ao Rei Leão, interpretou o caranguejo Tamatoa em um espetáculo inspirado na animação "Moana", preparou o elenco de Rapunzel — O Musical. Mas uma inquietação começou a tomar conta. “Com todo respeito, mas Broadway, Broadway, Broadway, sabe?”, ri.
Assim, em 2018, nasceu Balança, Bruxa!, musical inspirado nos contos de Franklin Cascaes, realizado através do Fundo Municipal de Cultura e produzido pelo LAB DAT. As canções variavam entre músicas regionais, como o “Rancho de Amor à Ilha”, e composições originais.
Em 2019, surgiu a ideia do Purpurina. Mas, logo que os ensaios estavam para começar, as portas se fecharam: a pandemia de coronavírus havia começado, mantendo todos dentro de casa. Sem previsão de reabertura dos teatros, foi preciso pensar em outros jeitos de manter o projeto vivo, como gravação de EPs e o primeiro concurso de drags, além de discussões sobre o texto e ensaios à distância. Foi só em abril de 2022 que os ensaios presenciais começaram, com a peça já praticamente toda montada.
A edição de 2022 não foi contemplada por editais, e o financiamento de mais de R$ 60 mil foi bancado por André Sens, valor que não foi totalmente recuperado na bilheteria. A remontagem de 2025 conseguiu R$ 150 mil através da Lei Rouanet.
À esquerda, Julie Vigano como a aspirante a modelo Sandra, e à direita, Jamil como Miguel, na produção de 2022. (Foto: Reprodução/Joy Studios)
À esquerda, Julie Vigano como a aspirante a modelo Sandra, e à direita, Jamil como Miguel, na produção de 2022. (Foto: Reprodução/Joy Studios)
Enquanto esperava a captação da Rouanet — que demorou cerca de dois anos —, Jamil foi assistente de direção de Into the Woods, Pela Floresta, produzida pela Marquee Productions, em parceria com a Camerata Florianópolis e com apoio do Programa de Incentivo à Cultura (PIC). O espetáculo estreou em janeiro de 2024 e foi o primeiro musical licenciado da Broadway produzido em Santa Catarina.
Segundo Rodrigo Marques, que dirigiu a peça, a ideia era estimular o público a consumir teatro musical em Florianópolis. “Eu acho que o catarinense ainda tem muito receio em investir em cultura, em cultura local, principalmente. Porque quando os espetáculos de fora vêm, eles lotam muito fácil. Mas espetáculos locais são um outro bicho”, diz. A estratégia foi bem sucedida: foram cinco sessões lotadas no teatro do Centro Integrado de Cultura (CIC), que tem capacidade para 906 pessoas.

Além da formação de plateia, a falta de estrutura também é um problema. De acordo com Rodrigo, não há salas de ensaio grandes que permitam montar cenários mais complexos, nem teatros suficientes para as apresentações. Além disso, como os teatros são públicos, antes é necessária a autorização e a designação de comissões do governo, e nem sempre a resposta é rápida — ou favorável. Assim, as produções não conseguem ficar mais de uma semana em cartaz, às vezes apenas um dia. “Ou seja, a gente acaba morrendo na praia”, lamenta a diretora Ana Garvik.
Há ainda a questão dos atores. Hoje, produtoras como a Movincena e a Marquee Productions oferecem cursos para formar artistas que saibam cantar, atuar e dançar — como diria Júlia Rubra, para formar os triatletas das artes. Mas, por enquanto, o universo de teatro musical em Florianópolis continua sendo bem fechado. “Todo mundo sabe da vida de todo mundo, as fofocas correm soltas”, ri Júlia.
Além dela, outros três artistas dividem seu tempo entre Mamma Mia e Purpurina, entre eles Sidarta Corrêa. Ao todo, Sid está no elenco de sete musicais — mesmo assim, sua fonte de renda principal não é o teatro, e sim as aulas de canto. Ainda não há estrutura para que os atores vivam somente disso em Florianópolis, já que os cachês das apresentações são esporádicos, às vezes variando com a quantidade de público. Nos últimos projetos de Júlia, ficaram entre R$ 300 e R$ 1000. Algumas produtoras pagam cachês de ensaio, outras não. E, às vezes, os próprios atores precisam pagar para manter as companhias, recebendo somente cachês simbólicos por projeto. “A gente pode dizer que tem um mercado em formação, mas que ainda não é um mercado de verdade, né?”, define Júlia.
"Tem um mercado
em formação, mas
ainda não é um
mercado de verdade."
Passadão
Meio-dia. Após o intervalo, é hora de ensaiar o ato um de Mamma Mia completo. É a primeira vez que vão encenar tudo assim, direto. Todos se reúnem em roda e a diretora Ana Garvik orienta: sem burburinho. Quem não estiver em cena não pode falar. Como a ideia é passar tudo de uma vez, quanto menos interrupções, melhor. “Se tiverem dúvida, errem.”
Enquanto Isabel De Franceschi canta na pele da protagonista Sophie, a diretora Ana Garvik faz suas anotações. (Vídeo: Marcelo Pedrozo)
Enquanto Isabel De Franceschi canta na pele da protagonista Sophie, a diretora Ana Garvik faz suas anotações. (Vídeo: Marcelo Pedrozo)
Apesar da fala inicial, o “passadão” para em diversos momentos, em especial porque alguns atores faltaram, então a própria Ana tem que assumir a personagem Rosie, amiga de Donna. Mas, quando não está em cena, a caneta de Ana não para.
Uma hora e vinte minutos depois, chega o momento dos feedbacks do dia. Está longo. Precisam diminuir o tempo. Mais importante é a recomendação para que os atores decorem o texto. As coreografias são muito calculadas, então os improvisos podem atrapalhar. E, se o texto não estiver decorado, é difícil visualizar, nos ensaios, se a cena funciona.
Um mês após o primeiro “passadão” do ato um, Ana informa que a coisa já mudou de figura e o texto está todo decorado. “Eles estão engajados e mergulhados, eles ensaiam real. Porque não adianta, só sábado é pouco tempo, tem que ensaiar fora. Então eu tô apaixonada por esse elenco, porque parece que eles estão realizando um sonho e é isso que me move”.
Elenco se reúne em roda para ouvir os feedbacks da diretora. (Foto: Marcelo Pedrozo)
Elenco se reúne em roda para ouvir os feedbacks da diretora. (Foto: Marcelo Pedrozo)
Em uma cidade onde nem todas as produtoras pagam os artistas antes das apresentações, onde os ensaios acontecem à noite ou em finais de semana, se mesmo assim os espetáculos continuam saindo, é porque os artistas gostam mesmo daquilo que fazem, é o que pensa Jamil Vigano. “Muitos já entram com um coração disponível. Quantas vezes eu vi elenco ajudando a colar pedrinha, costurar? Eu que tenho tentado minimizar os esforços. Se dá trabalho, então muda”.
No passado, Jamil já ensaiou até de madrugada, mas essa não é mais uma possibilidade. “Isso é cansativo. Vai passando o tempo e a gente entende que a pessoa precisa ir embora, e como é que ela vai? Eu hoje preciso ser mais empático. Eu penso, a hora que vai sair, a hora que vai acordar amanhã para trabalho, faculdade”.
E tudo isso para, muitas vezes, trabalhar sem receber, ao menos até a venda dos ingressos. É uma realidade que Jamil espera que acabe. “Não é justo. As pessoas se locomovem, se alimentam, ficam horas se dedicando, estudando”. Talvez, como cantou o grupo ABBA e como cantará o elenco da Movincena, a vida realmente não seja nada sem música e dança — mas também não pode ser só isso.
Foto da capa: Marcelo Pedrozo