Mulheres no ritmo do rock:
a história de quem ocupa os palcos
Artistas trazem diversidade à cena dominada por homens

Uma guitarra, uma bateria, um microfone. O palco é simples, mas o público se aproxima. Alguns ficam porque gostam de rock, outros querem conhecer a banda. Também tem gente que permanece só para ver se elas vão tocar bem. No fim da apresentação, um cara chega mais perto. “Nossa, duas mulheres, não acredito! É quase impossível vocês fazerem isso”. A situação ocorreu com as integrantes do duo Dirty Grills, mas outras artistas que fazem parte do rock underground de Florianópolis não escapam de comentários do tipo.
Jéssica Gonçalves e Mariel Maciel são as integrantes do duo. Desde pequenas influenciadas pelos familiares, que ouviam rock e eram beatlemaníacos, são uma prova de que a fruta não cai longe do pé. Sempre gostaram do gênero e já fizeram parte de várias bandas. Elas se conhecem há mais de 10 anos e, em 2021, resolveram montar a Dirty Grills.
Em meio à pandemia de Covid-19, suas bandas antigas estavam paradas. Há algum tempo elas tinham vontade de tocar juntas e, ali, viram a oportunidade de dar esse passo. Os primeiros ensaios começaram em agosto de 2021 e, em dezembro, o primeiro EP “Faz teus corre, irmão” estava sendo finalizado. Rapidez que só a quarentena poderia proporcionar.
Jéssica, guitarrista e vocalista e Mariel, baterista da Dirty Grills. (Fotos: Érica Zucchi)
Jéssica, guitarrista e vocalista e Mariel, baterista da Dirty Grills. (Fotos: Érica Zucchi)
Música “Ao menor sinal de autodepreciação aperte o botão de pânico”, do primeiro EP. (Vídeo: Érica Zucchi )
Música “Ao menor sinal de autodepreciação aperte o botão de pânico”, do primeiro EP. (Vídeo: Érica Zucchi )
Apesar da experiência, elas não têm formação em música e fizeram apenas algumas aulas de instrumentos na adolescência. A maior escola sempre foram as bandas em que tocaram. Jéssica, vocalista e guitarrista, trabalha com algo bem diferente dessa área: é bioquímica farmacêutica. Já Mariel, a baterista, é graduada em artes cênicas, mas, atualmente, dá aulas de bateria. Elas conciliam os empregos formais com o duo, um desafio definido pelas artistas como “loucura controlada”.

Mariel Maciel, além de baterista do duo, é professora de bateria. (Foto: Érica Zucchi)
Mariel Maciel, além de baterista do duo, é professora de bateria. (Foto: Érica Zucchi)
A Dirty Grills conseguiu furar a bolha e chegar a lugares mais distantes que os bares do centro leste de Florianópolis - locais onde as bandas de rock costumam se apresentar na capital catarinense. Jéssica e Mariel tocaram no Rock In Rio 2024 e em cidades como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Não é incomum que, em apresentações, elas dividam palco com outras bandas. E é diferente chegar para um show quando tem mulheres nesses grupos. “O clima é outro, nos sentimos mais em casa, à vontade”, descreve Mariel. Mas é inevitável perceber que em festivais e eventos, grupos femininos não encontram um espaço muito aberto. Elas até são chamadas, porém é comum serem colocadas em palcos e horários ruins.
"Quando a gente vai tocar
com bandas que têm
mulheres, o clima é outro.
Tu se sente mais em casa"
Não bastasse isso e as falas machistas, Jéssica e Mariel já ouviram comentários como “só são reconhecidas porque são mulheres. Se fossem homens não seria nada de mais, seria só mais uma banda”. De um lado, subestimam a capacidade, e, de outro, descredibilizam o prestígio delas.
Apesar das dificuldades, elas querem levar o rock feito por mulheres mais longe, e a representatividade é um passo para isso. “A gente que tá no underground, que viaja e conhece bastante coisa, vê quantas bandas incríveis existem, saca? E, às vezes, não tem muito espaço”, se queixa Mariel. Aos que consideram “quase impossível” duas mulheres no rock, as Dirty Grills reafirmam que esse também é um lugar que deve ser ocupado por elas.
Jéssica e Mariel preparam músicas para o novo EP. (Fotos: Érica Zucchi)
Jéssica e Mariel preparam músicas para o novo EP. (Fotos: Érica Zucchi)
Testes de arranjos para nova composição. (Vídeo: Érica Zucchi)
Testes de arranjos para nova composição. (Vídeo: Érica Zucchi)
Posicionamento e visibilidade
Montar equipamento, afinar os instrumentos, equalizar o som. Era isso que Maria Mu e seus companheiros de banda faziam, quando uma pessoa da organização do evento perguntou se ela era a namorada do guitarrista. Ela iria tocar e cantar, mas alguém do staff já estava ali “aumentado o caldo de revolta” dela. Situações como essa, inclusive, já se tornaram letra de música.
Maria faz parte da Distopix, banda de rock alternativo e grunge. O grupo surgiu durante a pandemia de coronavírus, em um contexto de “fim de mundo, em uma realidade caótica e distópica”, descreve. Daí vem o nome, que junta distopia com pix - lançado na mesma época. A artista entrou como convidada em 2021, e, mais tarde, com a saída do fundador, assumiu a liderança. Atualmente a banda está parada, por conta da saída do baixista, e Maria pretende retomar o grupo em outro momento.
Muitas de suas melodias na guitarra e letras de canções, no entanto, foram criadas antes da Distopix. Ela montou sua primeira banda, que fazia cover de Nirvana, aos 14 anos. “A gente fez alguns shows, nada muito elaborado”. Maria foi aprendendo um pouco mais sobre os instrumentos e o vocal em aulas de música e em uma banda da igreja que frequentava. Depois do grupo cover, passou por outros conjuntos que tinham composições próprias.
Maria Mu e seus colegas da banda Distopix. (Foto: Guilherme Willimann)
Maria Mu e seus colegas da banda Distopix. (Foto: Guilherme Willimann)
Maria montou sua primiera banda de rock aos 14 anos. Atualmente, é guitarrista e vocalista da Distopix. (Foto: Guilherme Willimann)
Maria montou sua primiera banda de rock aos 14 anos. Atualmente, é guitarrista e vocalista da Distopix. (Foto: Guilherme Willimann)
Para além da diversão, a artista usa a música para se expressar e passar uma mensagem política. “Quando estou tocando, trago um posicionamento, uma forma de dar visibilidade e representatividade para as mulheres”. Embora enxergue o rock como um espaço importante de ser ocupado, não pensa em fazer dele uma forma de ganhar dinheiro, por conta da desvalorização das produções independentes em Florianópolis.
“Quando toco, trago posicionamento, representatividade e visibilidade”


Ela é amiga de Jéssica e Mariel, da Dirty Grills, e as três já estiveram juntas nos palcos em diversas ocasiões. Maria compartilha a sensação de acolhimento ao tocar com as colegas. “A gente se trata como fãs umas das outras. Quando a gente se encontra, enquanto mulheres que sofrem preconceitos individualmente, conseguimos nos unir e escancarar a nossa potência feminina”.
As artistas percebem que o julgamento e a reprodução do machismo no rock, que se apresenta como um espaço transgressor, ocorre nas entrelinhas. Maria Mu é a única mulher da Distopix e tem a sensação que algumas pessoas do público esperam menos da banda por ter a presença feminina. Para ela, é difícil se inserir nesse ambiente, mas também pensa que quando as mulheres chegam no rock underground, ele se torna um lugar mais plural e agradável.
Mariel, Jéssica e Maria Mu. (Foto: arquivo pessoal)
Mariel, Jéssica e Maria Mu. (Foto: arquivo pessoal)
Single “Alma Sebosa". (Vídeo: Estúdio Sphera)
Single “Alma Sebosa". (Vídeo: Estúdio Sphera)
Pluralidade
Ao fazer apresentações em bares e eventos é comum o contato com produtores, organizadores e músicos de outras bandas. A troca é interessante, mas nem sempre é confortável estar nesse ambiente quando se é uma das poucas mulheres circulando por ali. Se sentir deslocada pode ser a definição mais próxima da sensação descrita pelas entrevistadas. As interações são diferentes, as piadas têm um contexto que não dá para entender, é difícil se integrar.
É assim que Laura Vlavianos se sente, às vezes. Ela é vocalista da banda Epônima, que mistura MPB com rock progressivo. O grupo foi criado em 2016 e a cantora foi convidada a integrá-lo quando o projeto ainda engatinhava. Depois de um tempo, os ensaios passaram a ser na casa dela, em um quartinho vago. No início, faziam covers, e, depois, começaram a trabalhar em composições próprias. A gravação do primeiro EP - “Epônima” - ocorreu em 2021 e o lançamento, em 2023.

Diferente de Maria Mu, Jéssica e Mariel, o gênero musical preferido de Laura sempre foi a MPB. Seu interesse pelo rock surgiu a partir do contato com as referências dos colegas de banda. Sua história com a música, porém, é mais antiga. Ela começou a ter aulas de piano e canto ainda na infância, incentivada pela família. “Eles continuam me apoiando. Toleram os ensaios nos sábados à tarde e sempre estão presentes nos shows”. Formada em artes visuais, Laura faz mestrado em processos artísticos contemporâneos, na Udesc, e divide seu tempo entre os estudos e a banda.
Ensaios são feitos na casa de Laura. Um quarto vago se trasformou em um estúdio improvisado. (Foto: Érica Zucchi)
Ensaios são feitos na casa de Laura. Um quarto vago se trasformou em um estúdio improvisado. (Foto: Érica Zucchi)
Davi, guitarrista e Giovanni, tecladista. (Foto: Érica Zucchi)
Davi, guitarrista e Giovanni, tecladista. (Foto: Érica Zucchi)
Durante os nove anos de existência, vários integrantes passaram pelo grupo, que já teve uma maioria feminina. Laura gostava da troca com as colegas, que precisaram sair para se dedicar a outros projetos. Hoje em dia, além da vocalista, fazem parte da banda o tecladista Giovanni Vellozo e o guitarrista Davi Delfino.

Laura é a única mulher da banda, que no passado teve outras integrantes femininas. (Foto: Érica Zucchi)
Laura é a única mulher da banda, que no passado teve outras integrantes femininas. (Foto: Érica Zucchi)
A artista sente falta também de mulheres em outras bandas. A Epônima gravou um single chamado “Suculenta” e o grupo está organizando os últimos detalhes para a finalização da música. A letra fala sobre assédio e Laura foi à procura de bandas com integrantes femininas para fazer parceria em um show de lançamento.
No entanto, os grupos que se aproximam do tipo de rock que eles tocam são compostos somente por homens. “Onde estão as mulheres dentro dessa cena? Eu acho que existe muito mais do que a gente conhece”, questiona Laura. Para ela, os motivos dessa ausência vão aparecendo de formas sutis, como a dificuldade de se sentir à vontade em ambientes masculinos e a falta de convites e oportunidades para integrar projetos que já existem.
“Onde estão
as mulheres?”
Trecho da música “Suculenta”. (Vídeo: Érica Zucchi)
Trecho da música “Suculenta”. (Vídeo: Érica Zucchi)
A abertura de um espaço confortável para as mulheres no rock em Florianópolis ainda é tímida. Das cerca de vinte bandas que fazem parte da cena, mais da metade são compostas exclusivamente por homens. A Epônima, a Distopix e a Dirty Grills, assim como outros grupos com presença feminina, têm um papel relevante para diversificar esse cenário. “A nossa participação incentiva outras meninas a tocar. A representatividade traz esse lugar de estímulo, de potência”, ressalta Maria Mu.
Fotos da capa: Érica Zucchi e Guilherme Willimann