Kósmika: arte em liberdade
Criada em CAPS, banda cria vínculos e
contribui para o Movimento da Luta Antimanicomial

Durante o show da Banda Kósmika, a plateia dança e canta em coro a música "O Cubo", do Dazaranha: “O meu compromisso com a minha natureza é de não ser igual”. Em pé, na primeira fileira, estão usuários do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) que, como fãs, conhecem todo o repertório da banda criada dentro do CAPS II, da Ponta do Coral. Não por acaso, as letras entoadas trazem questionamentos sobre a normatividade, medicalização e internação em hospitais psiquiátricos.
Há dois anos, a Kósmika faz da música um instrumento terapêutico e, por meio de suas apresentações, propõe a quebra de preconceitos e estigmas acerca do sofrimento psíquico. A ideia da banda surgiu a partir de oficinas de música — rodas de cantoria abertas, ofertadas no CAPS, e que não exigem experiência musical prévia. Lá, usuários e profissionais da rede, que já possuíam uma história com a música, decidiram se reunir em torno dessa paixão em comum. Os primeiros ensaios foram feitos dentro do ambiente do CAPS, mas a necessidade de uma acústica melhor e espaço para criação de vínculos entre os membros levou a banda a um estúdio alugado.


Simone Martins, uma das vocalistas da Kósmika, também é atriz. Ela conta que dentro do CAPS, principalmente com a banda e nas oficinas de teatro e música, criaram-se amizades e conexões, e o grupo se tornou uma espécie de família, cuidando uns dos outros. O seu processo artístico dentro das oficinas permitiu a experimentação e o erro, algo que ela não se permitia em sua carreira como atriz.
A banda já ocupou palcos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Centro Universitário do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina (Unicesusc) e no Bloco Baiacu de Alguém, além das apresentações em eventos do próprio CAPS. Neste ano, contribuiu com a composição do samba-enredo “Baiacu Fora da Caixa”, do Baiacu de Alguém. A música conta com clipe audiovisual e aborda a temática da saúde mental, trazendo a perspectiva do Movimento da Luta Antimanicomial.
O samba-enredo faz referência à Lei n.º 11.134, sancionada em 2024, que autoriza a internação involuntária de pessoas em situação de rua com dependência química ou em sofrimento psíquico: “E a cidade, que não acolhe, recolhe quem não se ajusta, tenta limpar e esconder o que assusta, e nos assombra com pecado capital”, denuncia a canção.
As músicas tocadas pela Kósmika vão do reggae ao rock e a MPB, abraçando o gosto eclético de todos os integrantes. A flexibilidade permite a abertura para novos membros, enquanto mantém uma estrutura fixa. Atualmente, a banda é composta por Sandra Creczynski, Simone Moraes Martins e João Carlos Sagas, no vocal; Luciano da Cunha, na bateria; Felipe Brognoli, na guitarra; Nove, no baixo; Carolina Chassot, no teclado; e Caio Kirchof, na voz e no teclado.
O grupo já lançou duas músicas próprias: “Estação da Alegria” e “Hino Rapscial”. A primeira tem como inspiração o verão na ilha de Florianópolis, enquanto o Hino Rapscial fala sobre o acesso à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e o tratamento em liberdade. “Ser louco ou ser normal, quem define afinal?”, questiona.
A banda se alinha com a Luta Antimanicomial e defende a desinstitucionalização e os direitos humanos. "O próprio existir da Kósmika fala da luta, é poder falar da loucura e estar onde quiser", diz a tecladista Carolina. O modelo do RAPS, ao qual o Hino Rapscial se refere, faz parte do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele surgiu como uma iniciativa da Reforma Psiquiátrica, com o objetivo de humanizar o cuidado com a saúde mental e promover o acesso universal aos serviços de atenção psicossocial. Esse modelo busca a inclusão social dos usuários, visando a reintegração comunitária e a redução de internações psiquiátricas prolongadas.
A lógica manicomial não se restringe apenas aos hospitais psiquiátricos, mas permeia a própria sociedade ao dividir os comportamentos como normais e patológicos e excluir os que estão em sofrimento mental dos espaços sociais. Um dos grandes nomes da Reforma Psiquiátrica no Brasil é Nise da Silveira, pioneira na utilização da arte como uma ferramenta terapêutica e de inclusão social. Ela defendia um tratamento humanizado, posicionando-se contra os métodos violentos utilizados nos hospitais psiquiátricos.
No Hino Rapscial, a banda questiona: “Hoje não existem mais manicômios, será?” A história da Kósmika é atravessada pelo tratamento de saúde mental e pela violência psiquiátrica. Uma de suas inspirações é o grupo musical Harmonia Enlouquece, criado no Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ), e autor de “Sufoco de Vida”, música que faz parte do repertório da banda manezinha. A letra retrata o sufoco de estar preso sem o direito de exercer a escolha sobre o seu próprio corpo: “Socorro, sou um cara normal asfixiado”.

O CAPS é um serviço público que atende pessoas em sofrimento psíquico com equipes multidisciplinares. O modelo faz parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) que visa ajudar no processo de reabilitação em atendimentos de saúde mental. As oficinas de artes do CAPS são uma iniciativa dos profissionais da saúde e dos usuários que utilizam equipamentos próprios para viabilizar os projetos, sem apoio governamental. O aluguel do estúdio para o ensaio da banda é pago pelo próprio grupo ou por vaquinhas feitas pela banda. O único apoio dado pela Prefeitura de Florianópolis foi por meio do edital de inexigibilidade, que financiou a gravação das músicas autorais da banda e do clipe do “Hino Rapscial”.
Brognoli, guitarrista da Kósmika e psicólogo coordenador da oficina de música do CAPS, defende que o tratamento da saúde mental não deve ser feito apenas de forma ambulatorial com medicamentos, mas, sim, promovendo esse ambiente de inclusão e reconhecimento.
Além do impacto na história pessoal dos participantes, a Kósmika tem um efeito no público do CAPS que se vê representado no palco. A banda pretende ampliar cada vez mais o público para trazer visibilidade para a arte e para a luta. Os espaços que o grupo normalmente ocupa com suas apresentações são eventos associados à saúde mental e o objetivo é alcançar o público de fora desse nicho.
Luciano tem uma trajetória musical de mais de 30 anos. (Foto: Maria Isabel Miranda)
Luciano tem uma trajetória musical de mais de 30 anos. (Foto: Maria Isabel Miranda)
Alguns ensaios são realizados dentro do ambiente do CAPS. (Foto: Maria Isabel Miranda)
Alguns ensaios são realizados dentro do ambiente do CAPS. (Foto: Maria Isabel Miranda)
A música ajuda na construção de vínculos. (Foto: Maria Isabel Miranda)
A música ajuda na construção de vínculos. (Foto: Maria Isabel Miranda)
No contexto de tratamento, a arte atua como uma clínica expandida, que permite às pessoas produzirem e expressarem sua fala. (Foto: Maria Isabel Miranda)
No contexto de tratamento, a arte atua como uma clínica expandida, que permite às pessoas produzirem e expressarem sua fala. (Foto: Maria Isabel Miranda)
Felipe Brognoli é psicólogo e coordenador das oficinas de música do CAPS. (Foto: Maria Isabel Miranda)
Felipe Brognoli é psicólogo e coordenador das oficinas de música do CAPS. (Foto: Maria Isabel Miranda)
O repertório da Kósmika é eclético e abraça o gosto de todos os membros. (Foto: Maria Isabel Miranda)
O repertório da Kósmika é eclético e abraça o gosto de todos os membros. (Foto: Maria Isabel Miranda)
A arte permite o endereçamento da mensagem para o outro. (Foto: Maria Isabel Miranda)
A arte permite o endereçamento da mensagem para o outro. (Foto: Maria Isabel Miranda)
A Kósmika defende o tratamento humanizado para a saúde mental. (Foto: Beatriz Figueiredo)
A Kósmika defende o tratamento humanizado para a saúde mental. (Foto: Beatriz Figueiredo)
A arte é um instrumento para uma sociedade sem manicômios.
Fotos da capa: Beatriz Figueiredo e Maria Isabel Miranda