Entre a voz e os versos:
a trajetória de Maria Helena

Sambista transformou rodas de choro,
quadras de escola e bares da cidade em palco

Em meio às ladeiras e enseadas, um canto feminino ecoa com força e carrega em si a história de um povo, de um ritmo e de uma cidade. Aos 86 anos, Maria Helena Azevedo Jorge é referência incontornável quando se fala em samba na capital catarinense. Não só por sua voz doce e firme, mas pelo  o que construiu em um cenário dominado por homens. “Aqui em Floripa eu consegui realizar o que tive vontade de realizar com a música”, orgulha-se.

A história começa longe da Ilha. Nascida em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, Maria Helena cresceu em uma casa simples, de barro, telhado de sapê, onde a música já era um pilar. “Todo sábado tinha roda de choro lá em casa. A flauta era de bambu, coisa linda. Eu me criei ouvindo aquilo”.

Apesar do ambiente musical, sua juventude foi marcada por restrições. Após a morte da mãe aos nove anos, foi criada por parentes que valorizavam a música erudita. Na nova casa, somente entrava a música clássica tocada ao piano; aos finais de semanas era a vez de cantar no coral da igreja e, quando não era dia de aula, o piano permanecia fechado com cadeado. “A minha tia era rígida, não deixava nem eu ficar sozinha com o piano. Mas eu queria cantar do meu jeito”.

Após se mudar para a capital catarinense, aos 28 anos, seus caminhos mudaram completamente. Casou-se com Antônio em 1967, parceiro de vida e de estrada. Por conta do trabalho dele, moraram em Recife e em Curitiba antes de chegar a Florianópolis. A cidade não foi uma escolha aleatória. “Eu tinha passado por aqui em viagem e disse: um dia ainda venho morar nesse lugar. Era uma vontade antiga”.

Na cidade , enfrentou o desafio do recomeço. Não conhecia a cena cultural local e, com a filha ainda pequena, teve que equilibrar a vida doméstica com o desejo de cantar. Começou aos poucos: eventos pequenos, “canjas” em bares, boleros com tecladistas. “Cantava o que me pediam, mas ainda não era o que eu queria. O samba estava guardado em mim”.

Antes mesmo de se tornar intérprete reconhecida, Maria Helena se apaixonou pela energia do carnaval — e, curiosamente, isso aconteceu fora do Rio, onde nasceu. “Olha, eu morava no Rio de Janeiro e nunca tinha visto uma escola de samba de perto. Nunca tinha ido num desfile. Fui ver aqui em Florianópolis”, conta, rindo.

A estreia veio por convite em 1979, como quase tudo em sua vida musical. Dois compositores se aproximaram enquanto ela fazia um sarau para idosos. “Eles chegaram e disseram: ‘Maria Helena, a gente tem um samba que é a sua cara, vai ter concurso lá no Consulado. Você topa cantar?’ Eu disse: ‘Mas nunca cantei samba-enredo. Será que dá certo?’ Eles insistiram, me mandaram a música”.

A composição se chamava “Desde Que Te Ame”, de Cláudio Caldas e Elias Marujo.  Mas somente em 1985 veio a sua primeira vez cantando numa escola de samba. A partir daquela apresentação, sua presença virou destaque. “Depois disso, todo concurso de samba-enredo vinham atrás de mim. Mas eu só cantava para um por vez — quem me chamava primeiro, eu ia. Nunca traí ninguém”.

A intérprete  se envolveu de corpo inteiro com o ambiente do carnaval. Desfilou, cantou em quadras, participou de ensaios. “Comecei no Consulado porque era perto da minha casa, mas depois fui para a Protegidos da Princesa. Foi lá que cantei pela primeira vez num samba de quadra. E também foi lá que tive a honra de cantar ‘Irradia’ com o Neguinho da Beija-Flor. Você imagina? Aquilo foi inesquecível”.

A sambista foi uma das primeiras mulheres a ganhar projeção no samba de Florianópolis. “O samba daqui era muito masculino. Eu fui uma das únicas a subir no palco e dizer: tô aqui. Isso abriu portas para outras”.

Maria Helena sempre fez questão de valorizar os compositores da terra — e não apenas cantando suas obras, mas construindo com eles verdadeiras parcerias. Durante dez anos consecutivos, foi intérprete em concursos de marchinhas de carnaval, onde consolidou uma relação forte com Josué, Carlão e Bira Pernilongo. “Teve um ano em que eu ganhei tudo com Josué. Primeiro lugar em marcha, primeiro lugar em rancho. Ninguém levou prêmio nenhum — foi tudo nosso”, lembra, sorrindo. “No outro ano, veio o Bira. Também ganhamos tudo. E eu fiquei feliz, porque eles mereciam. Eram meus favoritos”. A relação era de confiança mútua e respeito artístico, e ela os ajudou a projetar canções que, sem ela, talvez não tivessem sido ouvidas.

Um vinil para abrir portas

Entre os muitos nomes que passaram pela vida musical de Maria Helena, um se destaca com carinho especial: o professor, compositor e arranjador Wagner Segura. Foi com ele que Maria Helena produziu seu primeiro disco: “Deixo a Porta Aberta”.

A amizade começou quando ela ainda se apresentava no restaurante da família no Centro da cidade, o Gália, com os irmãos ao violão e contrabaixo, em 1981. “Ele me viu cantar e logo se aproximou. Tinha aquele olhar atento, de quem percebe o detalhe. Um maestro mesmo, desses que ouvem o que os outros não percebem”. A partir daí, vieram ensaios, experimentações e a ideia de eternizar a voz dela em vinil.

Wagner foi responsável por todos os arranjos do disco, feito com repertório exclusivamente de compositores locais. “Ele escreveu tudo. Cada sopro, cada percussão. O problema é que os músicos daqui, naquela época, mal liam partitura. Muitos tocavam só de ouvido”. O desafio foi imenso: parte da gravação teve que ser feita com músicos da banda militar, e outra parte contou com convidados especiais, como o lendário Jorginho do Pandeiro, do grupo Época de Ouro, trazido do Rio de Janeiro graças à ponte cultural que Wagner ajudou a construir.

A parceria entre os dois ultrapassou a partitura. “O Wagner foi mais que músico. Foi irmão, conselheiro. Ele acreditava que a música daqui merecia respeito. E ele me ensinou a confiar mais em mim”.

Ela conta que recebeu mais de cem fitas cassetes para a produção do vinil, mas com a ajuda de Wagner o projeto foi possível. “Foi uma luta. Mas o Wagner não desistia. Teve música que ele teve que ajustar três vezes até encontrar o ponto. Ele queria que ficasse perfeito, e ficou”, conta. Essa confiança permanece até hoje, quando Maria Helena fala com brilho nos olhos sobre o maestro que a ajudou a transformar a paixão pela música em um legado palpável. “Sem ele, o vinil não existia. E muita gente não teria tido a chance de ser ouvido”.

Antes do reconhecimento formal, Maria Helena cantava onde podia — inclusive no próprio restaurante da família. Ela e os irmãos, com apenas voz, violão e contrabaixo, faziam serenatas de mesa em mesa, começando ali a conquistar o seu público. Depois, ela foi atração fixa em espaços como o Casarão da Praça XV e o Café da Corte, onde filas se formavam para vê-la cantar. “Teve gente que ficou três meses tentando me ver, porque toda sexta-feira estava lotado”, relembra.Maria Helena viveu momentos únicos. Ao longo da carreira, cantou com Leci Brandão, conheceu Dona Zica da Mangueira, mulher de Cartola, em uma conversa, durante a visita da Velha Guarda da Mangueira, disse para Maria Helena que a música “Tive Sim” era sobre ela. “Fiquei boba, mas me peguei pensando sobre a letra, ‘vou calar pra não te magoar’. Pensei: Ih, ele teve outro amor. Contei isso a Dona Zica. Ela nunca tinha reparado na letra e riu”.

Também esteve com Sivuca e Guilherme de Brito, parceiro de Nelson Cavaquinho. “Essa turma era raiz mesmo. Tive o privilégio de estar com eles. São encontros que ficam”. Não à toa, foi reconhecida como Melhor Intérprete no Festival da Canção da Federação Catarinense de Cultura em 1993. 

Apesar da trajetória sólida e do carinho que recebe do público, a veterana não se deixa levar pela vaidade e não esconde a frustração com a forma como o samba local ainda é pouco reconhecido e divulgado em Florianópolis. Ela lembra com amargura de um episódio recente, em que foi convidada para um evento sobre samba de terreiro e partido alto, mas viu os compositores da cidade completamente ignorados. “Eu chamei o rapaz do projeto e perguntei: cadê o pessoal daqui? Cadê o Nazareno, que fez o Irradia? Cadê os compositores que eu gravei em 1989, quando ninguém nem sabia o que era samba por aqui? Não era por mim não estar ali — eu já sou vista. Era por eles. Era pela história do samba de Floripa que ninguém conta”.

Para Maria Helena, esse apagamento cultural é uma ferida aberta e ela garante que o samba de Florianópolis tem raiz, tem história e identidade. “Não dá mais para tratar como se tudo tivesse nascido no Rio. O nosso também vale”.  Mesmo assim, ela segue firme, cantando, formando novos públicos e dizendo — com a voz e com o corpo — que a cultura popular de Florianópolis tem memória.

A paixão pelo samba é também um compromisso com a história cultural. “Hoje em dia, vejo gente acelerando música, pulando refrão, emendando uma na outra. Perdem o sentimento. Então resolvi montar um projeto ali no Belgas, onde canto há nove anos, para mostrar como se faz um samba inteiro, com começo, meio e fim”.

Além de cantar toda semana no restaurante localizado na parte continental da capital, Maria Helena segue sendo procurada, chamada para eventos e rodas de samba. Sua história não é apenas de superação, mas de contribuição constante para a valorização da cultura local. 

Para ela, Florianópolis é  mais do que uma cidade. Foi o chão fértil para que pudesse florescer. “Aqui eu soube quem eu era”. Quando questionada sobre como gostaria de ser lembrada, ela responde simplesmente: “Por abrir caminho. E por cantar com verdade”.

Fotos da capa por Acervo pessoal e Amanda Kovalczykovski
Vídeo por Amanda Kovalczykovski