Choro Mulheril: a revolução cultural que ecoa nas ruas
Roda de choro formada por mulheres cria
um espaço de acolhimento e representatividade
Por Juliana Carvalho
julianacarvalhojc251@gmail.com

"Eu ia parar de tocar." Foi isso que Natália Livramento, violonista de 35 anos, decidiu no momento em que pensou em abandonar a música. Mas o que parecia ser o fim, tornou-se o início do Choro Mulheril, uma roda de choro formada exclusivamente por mulheres, criada em 2022. “A pandemia mexeu muito comigo. Quando tudo voltou, eu não tinha mais força para trabalhar com homens. Qualquer coisa me desestabilizava demais”, relembra. Foi após um desabafo com amigos que veio o conselho definitivo: criar o próprio espaço. “A Cláudia Rivera, minha amiga, virou pra mim e disse: ‘Não é pra tu sair, é pra tu fazer o teu movimento.’ E assim foi”.
Natália começou a tocar na adolescência, com 16 anos, quando ainda morava em Itajaí. Durante sua formação, na escola e faculdade, era raro ver representatividade de gênero em rodas de choro. Até em eventos de música e festivais de violão, ela costumava ser a única mulher na sala. Por isso, ao chegar em Florianópolis, uma das suas maiores referências se tornou uma cavaquinista chamada Fernanda Silveira, que atuava no choro local antes de mudar de cidade. "Eu olhava pra aquela força, aquela altivez que ela tinha no palco. Só depois percebi que aquilo era uma armadura necessária para sobreviver num ambiente completamente masculino", conta.
Atualmente, com anos de experiência e "horas de voo", como ela mesma define, Natália usa suas vivências para receber as novas instrumentistas que chegam ao grupo. "Ao mesmo tempo que foi difícil para mim, hoje virou uma memória que tento usar para acolher". Mesmo ainda sendo, em alguns espaços, a única mulher no palco, ela percebe como o Choro Mulheril abriu caminho para outras instrumentistas.
A ideia da roda surgiu a partir de conversas informais e do desejo de várias instrumentistas em aprender e tocar choro em um espaço seguro. "Foi tudo muito rápido. Marcamos e logo na primeira edição tivemos uma roda enorme, com cerca de 30 mulheres de vários níveis, desde iniciantes até profissionais. Foi revolucionário", relembra Natália.
A flautista Angela Coltri esteve ao lado de Natália desde o início do movimento. Natural de São Paulo, ela já acumulava experiências profissionais com choro e samba, mas sempre foi uma das poucas mulheres nos grupos em que tocava. Por anos, Angela evitou frequentar rodas de choro por se sentir desconfortável em ambientes predominantemente masculinos. “Eu achava que o problema era meu, que eu precisava estudar mais, melhorar, para me sentir apta”.


O Choro Mulheril se tornou também um espaço seguro para instrumentistas iniciantes. “A gente pensou em um lugar onde ninguém seria medido. Quem quisesse aprender podia chegar”, explica. Com isso, mulheres que antes não se sentiam seguras para tocar choro começaram a frequentar a roda. “Tem meninas que começaram com medo de improvisar e agora estão voando”, conta Angela. Para ela, a principal função da iniciativa é dar visibilidade à causa e promover a representatividade feminina na música, especialmente em gêneros tradicionalmente dominados por homens, como o choro. Criar um ambiente acolhedor e inclusivo é essencial para mulheres que antes não se sentiam aptas a participar de rodas de música se sintam bem-vindas e valorizadas.
"Hoje, quem vai a um show percebe que, se não tem nenhuma mulher, isso é estranho", comenta Angela, apontando para uma mudança de consciência que já se tornou mais natural. Para ela, essa transformação pode ser vista nas próprias rodas de choro da cidade, que começaram a convidar musicistas mulheres com mais frequência, refletindo o avanço dessa conscientização.
A Roda de Choro Mulheril acontece todos os sábados na Bugio Centro, em Florianópolis. (Vídeo: Juliana Carvalho)
A Roda de Choro Mulheril acontece todos os sábados na Bugio Centro, em Florianópolis. (Vídeo: Juliana Carvalho)
"‘Não é pra tu sair, é pra tu fazer o teu movimento.’
E assim foi”.
Natália Livramento

Mesmo com o sucesso, as integrantes ainda lidam com resistências e comentários preconceituosos. Natália conta que já ouviu diversas “piadas” de colegas musicistas. "Coisas como ‘vou ter que botar uma peruca para tocar com vocês’. Eu respondo: 'Nunca precisei coçar meu saco imaginário para tocar na sua roda’".
Para Elizabeth Hoffman, frequentadora do Choro Mulheril há cerca de dois anos, a iniciativa é uma celebração da memória e da representatividade feminina no choro. “Admiro muito, as profissionais aqui me encantam”, comenta. Segundo ela, o movimento realiza um trabalho incrível de resgate de compositoras esquecidas e dá voz às mulheres que ficaram invisibilizadas pela história.
Hoje, a rua em frente ao Bugio aos sábados pela tarde não é apenas um espaço de aprendizado, mas um símbolo de resistência, acolhimento e potência feminina. Realizada ao ar livre, a roda atrai famílias, idosos e públicos diversos, criando uma atmosfera de leveza e inclusão. "Cada participante tem sua história de superação, sua revolução interna. Mas juntas, formamos uma rede de apoio poderosa", celebra Natália.
Fotos da capa: Juliana Carvalho