Drag Jockey:
dos palcos às mesas de controle

Em busca de oportunidades,
drag queens entram no mundo da discotecagem

Blondie a Charli XCX. Vick Becker toma o controle da mesa às 23h30. Mais uma sexta-feira do lado leste do centro leste de Florianópolis. Na Opium, casa em que é residente e toca todo mês, o tema da festa é anos 1980 vs. anos 2020. É o que ela mais gosta de tocar e de ouvir. ABBA, Michael Jackson, Cyndi Lauper, tudo que é nostálgico para quem foi uma criança “viada” nos anos 1990.

As mãos não saem da CDJ, o aparelho no qual reproduz as músicas. Sempre há um ajuste a ser feito: gira um botão, reposiciona os fones, olha atentamente. É lá pela terceira música, “Eye of The Tiger”, que Vick parece relaxar. Faz isso desde 2018, uma época em que ser DJ não era tão comum entre drag queens.

Juan de Farias, o idealizador de Vick, se montava há dez anos quando começou a aprender a discotecagem.

A performance, carro-chefe da arte drag por muito tempo, nunca foi sua praia.

Na Jivago, uma casa noturna também no centro, Vick teve o primeiro contato com o equipamento.

Foto: Pedro Ambrósio

Foto: Pedro Ambrósio

Foto: Pedro Ambrósio

Foto: Pedro Ambrósio

"'Se você é drag, tem que fazer uma performance', falavam antigamente. E hoje em dia não tem mais isso."

Vick Becker

Aprendeu o que conseguiu em uma noite com o DJ Chris Defreyn, seu amigo. Depois, foi a drag Alexia Rockr quem a ensinou, durante um dia todo e, já naquela mesma noite, Vick estreou como DJ na boate Eclipse, em Tubarão (SC).

O DJ, cabeleireiro e peruqueiro também dedica o seu tempo à organização do Drag Battle, uma competição de drag queens nos moldes do reality show RuPaul’s Drag Race. Criado em 2022, o projeto é prioritário para Juan, que acredita na importância de criar oportunidades de trabalho para as novas drag queens, sobretudo em um cenário de queda das performances.

Foto: Nicolas Starosky

Foto: Nicolas Starosky

Foto: Nicolas Starosky

Foto: Nicolas Starosky

Para as drags de Florianópolis, a demanda por DJs foi a solução para a baixa procura por performances.

Toda casa noturna, balada e festa precisa de alguém comandando a música, o que Alice Cavazzott, drag de André Santiago, faz desde 2016. Hoje, a sua renda é oriunda exclusivamente da drag, diferente de quem está iniciando e ainda procurando um nicho para se expressar.

"Não virou uma opção, não é uma opção. Se você não fizer isso, você não vai se manter na arte drag."

Alice Cavazzott

O crescimento das drags na cena musical brasileira é marcado por nomes como Pabllo Vittar e Glória Groove, mais conhecidas por suas composições. Pabllo, que lançou o seu primeiro hitOpen Bar em 2015, também é DJ e tocou na abertura do show de Lady Gaga no Rio, em 3 de maio deste ano. Apesar da maior presença na música, a marginalização e a falta de oportunidades são marcantes para quem faz drag.

André se montou pela primeira vez em 2014. Buscando uma oportunidade para aprender, respondeu “Eu toco” para o produtor de uma festa que o abordou. Nunca tinha encostado em uma CDJ, mas saiu com data e cachê acertado para um próximo evento. Foi a chance que viu e se agarrou nela. 

No dia da festa, Alice chegou mais cedo na boate e passou a tarde descobrindo o equipamento. Aquela noite foi a primeira de muitas.

Os valores de cachê para DJs, pagos por uma hora e meia a duas horas de setlist, são especialmente baixos para drag queens. Em Florianópolis, os menores valores estão entre R$ 120 a R$ 150 por set, o que leva as DJs a tentarem tocar em mais de uma casa por noite. O transporte não incluso, o pedido das casas por exclusividade e a vida noturna quase inexistente fora dos fins de semana comprometem a renda. Os cachês mais altos podem chegar a R$ 600. Entretanto, os pagamentos não levam em consideração um dos diferenciais da arte drag, a montação.

Os looks podem custar milhares de reais. Roupa, sapato, acessórios, maquiagem e peruca são itens básicos de montação que exigem um investimento significativo. Com o tempo, o look se paga, ou seja, quanto mais usado, melhor o custo-benefício. Mas a preparação para maquiagem é sempre mais demorada do que para DJs tradicionais, a maioria homens que não fazem drag nem performam.

Stella Puzzle Pride faz as três coisas: drag, DJ e performance. Começou com uma só, o cosplay, em 2015, em um evento de anime. “Eu tinha visto uma moça fazendo a Mulher-Gato e eu fiquei ‘Meu Deus, eu quero ser ela’, aí quando eu vi que era uma drag, eu fiquei ‘Ah, meu Deus, eu quero ser ela mais ainda’”.

Dos eventos de anime para as baladas, Thomas William Alencar passou a se montar imitando artistas, como Lady Gaga, até, enfim, encontrar sua identidade, que chamou de Stella. Performava nas festas por conta própria, o que chamou atenção de produtores e a levou a performar em algumas casas. Em 2022, participou da primeira edição do Opium’s Drag Battle. A partir de um convite de Vick Becker, Stella entrou no mundo da discotecagem.

Foto: Ky Fotografia

Foto: Ky Fotografia

Foto: Ky Fotografia

Foto: Ky Fotografia

"Eu ficava olhando em todos os botões que elas apertavam e começava a gravar de cabeça, depois anotando num papelzinho, anotando no celular, indo para casa e pensando."

Stella Puzzle Pride

A principal fonte de renda de Thomas não é a sua drag, e, sim, a costura. Fazendo figurinos para drags, ele compõe a renda que a discotecagem e a performance não dão conta. Na sua visão, a capital ainda é pequena, o que colabora para a escassez de oportunidades, mas não explica tudo. Balneário Camboriú (SC), que tem menos da metade da população de Florianópolis, é apontada por ele e por outros artistas como um local que oferece melhores remunerações.

Entre as casas noturnas mais frequentadas por drags queens em Florianópolis estão a 153, Pink Pub, Galeria Lama, 1007, UNDR e Opium, todas concentradas no centro da cidade.

Foto: Lucie Kn

Foto: Lucie Kn

Foto: Lucie Kn

Foto: Lucie Kn

Com o Drag Battle, a Opium se estabeleceu como um local de formação de drags. Lizza, drag de Henrique Scussel, participou da 3ª temporada, em 2023, e, a partir daí, se profissionalizou na arte.

A cena drag não é simples de adentrar. Demanda networking — uma rede de conexões — para ser indicado, fazer os primeiros trabalhos e, então, ganhar algum reconhecimento que faça surgir novas oportunidades. Aos 18 anos, Henrique não sabia por onde começar. Fez drag como hobby por cerca de cinco anos até participar da competição na Opium, o pontapé que faltava. O que antes era apenas uma externalização do seu lado feminino se tornou uma ocupação profissional, consolidando a drag Lizza.

A DJ toca desde setembro de 2024. Faz performance e hostess, recepcionando o público do evento e cuidando da lista de entrada. A preferência é atuar como DJ por uma série de motivos: o número maior de convites para trabalhar, já que, em cada noite, atuam no mínimo três DJs por estabelecimento; o gosto pela música, principalmente por K-pop — o pop sul-coreano —; e o nervosismo que a performance lhe causa.

Como tudo na vida, nem a discotecagem é livre de imprevistos. Tocando em uma balada pela primeira vez com uma CDJ diferente da que estava acostumada, Lizza notou que as músicas paravam na metade. Os arquivos do pen drive haviam sido corrompidos e parecia que a pista lhe fuzilava com os olhos. A troca do pen drive por outro emprestado por uma amiga resolveu o problema inicial. Mas o clima da festa também é responsabilidade da DJ. E, igualmente, é uma especialidade das drag queens.

"A drag a gente tem que estar 100% up, sempre feliz."

Lizza

Lizza vê o cenário como promissor e, assim como Vick, Alice e Stella, pretende permanecer em Florianópolis, apesar das poucas oportunidades. Manezinhas, elas nutrem afeto pelo lugar onde começaram suas carreiras e enxergam a drag como uma arte que continua a se transformar.

Na Opium, às 00:45, Vick Becker toca a última música dos anos 1980 de seu set: “Maniac”, de Michael Sembello. “Just a steel town girl on a Saturday night”. Ela faz a transição para o pop dos anos 2020 e encerra sua participação daquela noite com Lady Gaga. Deixa a pista cheia para o próximo DJ. Há 15 anos fazendo drag, Vick continua se reinventando e não pretende deixar a cena.

Fotos da capa: acervos pessoais